terça-feira, 18 de novembro de 2014

Dia Mundial da FILOSOFIA


No próximo dia [20] (…), celebra-se o Dia Internacional da Filosofia, para chamar a atenção para a sua importância fundamental.
Mas, afinal, o que é e para que serve a Filosofia? D. Huisman e A. Vergez (…) escrevem, não sem razão, que há duas palavras que fazem do Hamlet “a peça filosófica por excelência”. Primeiro, há o famoso solilóquio: (…) “ser ou não ser: eis a questão”, e, depois, quando Polónio pergunta a Hamlet o que lê, este responde: (…) “palavras... palavras... palavras...” Alguns pensarão que a Filosofia não passa de um jogo de palavras (…).
Mãe de todas as ciências, a Filosofia não é uma ciência no sentido estrito, como hoje a entendemos. Daí que nenhum dos sistemas filosóficos obtenha consenso universal. Assim, quem não toma atenção, ao olhar para a história da Filosofia, pode ter a sensação de um montão de ruínas. Mas o filósofo é isso mesmo: filósofo. Não é sábio, mas amante da sabedoria. K. Jaspers acentuou: a Filosofia “trai-se a si mesma quando degenera em dogmatismo, num saber fixado numa fórmula, definitivo, completo. Fazer Filosofia é estar a caminho; as perguntas em Filosofia são mais essenciais do que as respostas e cada resposta converte-se numa nova pergunta”. Montaigne escreveu que “filosofar é aprender a morrer”. Portanto, a Filosofia também é arte de viver. No espanto interrogador: foi o espanto que levou os primeiros pensadores às especulações filosóficas, escreveu Aristóteles, seguindo o mestre, Platão. Por isso, Kant preveniu que a Filosofia não se pode aprender nem ensinar, apenas se pode aprender a filosofar. Foi essa também a lição de Sócrates, o mártir da Filosofia. Com o seu método (…), ia derrubando o falso saber, assente na ignorância (…), e, obrigando a refletir, servia de parteiro à verdade. Acusado de ateu e corruptor da juventude, não temeu a morte. Pelo contrário, enfrentou-a com dignidade, avisando os seus concidadãos: “Obedecerei mais ao Deus do que a vós e enquanto viver não deixarei de filosofar e interrogar-vos:
ateniense, como é que te não envergonhas de só pensar em amontoar riquezas, em adquirir honras, e
desprezas os tesouros da verdade e da sabedoria e não trabalhas para tornar a tua alma tão boa quanto pode sê-lo?”.
Filosofar é um trabalho de reflexão, isto é, tem a ver com aquele movimento do espírito que volta a si mesmo, pondo em questão os conhecimentos que já tem, a caminho de um saber (…) consciente e crítico (…). Neste sentido, a vida verdadeiramente humana é filosófica, ao colocar-se no plano da inquirição racional livre e do constante pôr em questão. (…) O filósofo, indo à raiz das questões, não abandona o mundo: o que alimenta a sua reflexão são os problemas essenciais do mundo e do homem. (…)
O filósofo verdadeiro não cai no dogmatismo: é crítico, humilde e tolerante na busca sem fim da verdade. (…) A razão, percorrido todo o seu caminho sabe que acende a sua luz na noite do mistério.
                                                      
                                                              Anselmo Borges, in Diário de Notícias, 14 de novembro 2009.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Para que serve a filosofia?


Mas será verdade que a filosofia não serve para nada? Claro que não. A filosofia, como a ciência, como a arte e como a religião, serve para alargar a nossa compreensão do mundo. Em particular, a filosofia oferece-nos uma compreensão da nossa estrutura conceptual mais básica, oferece-nos uma compreensão daqueles instrumentos que estamos habituados a usar para fazer ciência, para fazer religião e para fazer arte, assim como na nossa vida quotidiana. A filosofia é difícil porque se ocupa de problemas tão básicos que poucos instrumentos restam para nos ajudarem no nosso estudo. Os matemáticos fazem maravilhas com os números; mas são incapazes de determinar a natureza última dos próprios números - têm de se limitar a usá-los, apesar de não saberem bem o que são. Todos nós sabemos pensar em termos de deveres, no dia-a-dia; mas a filosofia procura saber qual é a natureza desse pensamento ético que nos acompanha sem nós darmos muitas vezes por isso.
Para compreendermos melhor as dificuldades da filosofia é conveniente pensar numa metáfora. Imagine-se que estou a fazer uma casa. Preciso de usar várias ferramentas, como a pá de pedreiro, e vários materiais, como o cimento. Mas quando quero fazer uma pá de pedreiro, ou quando quero fazer o cimento, terei de usar outras ferramentas mais básicas. E depois terei de ter ferramentas para fazer as ferramentas com que faço a pá de pedreiro ou o cimento. E por aí fora. Experimente ir para uma ilha deserta fazer uma casa, sem levar nada da civilização. Será extremamente difícil: não terá ferramentas à sua disposição para fazer nada, exceto as suas mãos e a sua inteligência.
Num certo sentido, é esta a dificuldade da filosofia: estamos a tentar estudar as próprias ferramentas que usamos habitualmente para pensar. Por esse motivo, falta-nos ferramentas, falta-nos apoio. Mas não estamos completamente desamparados; temos a argumentação para nos ajudar. São os argumentos que fazem a diferença. São os argumentos que nos permitem ir mais longe na compreensão da nossa estrutura cognitiva mais profunda, que nos permitem compreender melhor os conceitos que usamos no pensamento quotidiano, científico, artístico e religioso.
É agora claro que a filosofia serve para alguma coisa. Serve para compreendermos melhor a estrutura conceptual que usamos no dia-a-dia, na ciência, nas artes e na religião. Claro que a filosofia não serve para distrair o «povo», como o futebol ou a tourada. Mas também a matemática não serve para isso, nem a religião, nem a arte em geral. Para que serve Os Maias, de Eça de Queirós? Para que serve a teoria da evolução de Darwin? Para que nos serve saber que só na nossa galáxia há tantas estrelas quantos os segundos que existem em três mil anos? Serve para sabermos mais sobre nós próprios e sobre o universo em que habitamos. Tal como a filosofia.
                                                           Murcho, Desidério, A Natureza da Filosofia e o seu Ensino, Plátano Editora, Lisboa, 2002, Pág. 65



quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A filosofia não é "adversarial".

Porque em filosofia argumentamos uns com os outros sobre questões filosóficas, é natural pensar que a filosofia é um processo "adversarial" [antagónico] como dois advogados (o de acusação e o de defesa) que argumentam um contra o outro num tribunal. Contudo, há duas razões pelas quais esta comparação dos filósofos com os advogados não é boa. Em primeiro lugar, o objetivo de cada advogado é ganhar a causa do seu cliente — quer o seu cliente esteja inocente quer não. Pelo contrário, o objectivo de dois filósofos que se encontrem a argumentar um com o outro é chegar à verdade — seja ela qual for e seja quem for que tenha razão. Como um estudante afirmou, eloquentemente, o objetivo de cada advogado é ganhar a causa, quer ele tenha a verdade quer não, ao passo que o objetivo de cada filósofo é chegar à verdade, quer ele ganhe o argumento quer não. (Sendo os filósofos seres humanos, nem sempre são assim tão imparciais, mas o ideal é este.)
Em segundo lugar, num julgamento há uma autoridade (o juiz ou o júri) que os advogados tentam persuadir, e que em última análise determina se o acusado está ou não inocente. Em filosofia, pelo contrário, não há qualquer juiz ou júri com autoridade para tornar uma posição incorrecta e a outra correcta. Só existimos nós. Claro que alguns de nós sabem mais do que outros sobre questões filosóficas, e o mais sábio é ficar atento e aprender com quem sabe mais do que nós, mas quando chega o momento de tomar decisões relativamente a um tema filosófico somos todos igualmente responsáveis pelas nossas crenças e devemos por isso tomar, cada um de nós, as suas próprias decisões.

Richard E. Creel Tradução de Desidério Murcho  Thinking Philosophically, Blackwell, Oxford, 2001, p. 88

sábado, 21 de junho de 2014

Viver Juntos

«Para que pode servir a Filosofia contemporânea?
Para viver juntos da melhor maneira: no debate racional,
sem o qual não existe democracia, na amizade, sem a
qual não existe felicidade, finalmente na aceitação, sem a
qual não existe serenidade. Como escreveu Marcel
Conche a propósito de Epicuro, "trata-se de conquistar a
paz (pax, ataraxia) e a philia, ou seja a amizade consigo
próprio e a amizade com o outro." Eu acrescentaria: e
com a Cidade, o que é política, e com o mundo - que
contém o eu, o outro, a Cidade… -, o que é sabedoria.
Dir-se-á que isso não é novo… A Filosofia nunca o é.

A sabedoria é-o sempre.»
                                                                                   
                                                                                   André Comte-Sponville

terça-feira, 17 de junho de 2014

Trabalho dos Alunos: Criação de Blogs no âmbito "da dimensão estética - análise e compreensão da experiência estética”

O reconhecimento da especificidade da experiência estética no triplo registo de experiência da natureza, da criação artística e da contemplação da obra de arte, constitui um momento do conteúdo “a dimensão estética - análise e compreensão da experiência estética”, conteúdo este lecionado no presente ano letivo e no âmbito da disciplina de Filosofia, no seu décimo ano de escolaridade.
Assim sendo, os alunos que frequentaram a disciplina de Filosofia neste domínio foram convidados a comunicar a sua experiência estética, uma vez colocados perante obras de autores, portugueses e estrangeiros, dos mais variados setores da atividade artística. Estimulados, que foram, para a atribuição de um valor estético à criação artística, os alunos estudaram o ponto de vista de alguns autores, ao mesmo tempo que os enquadraram numa perspetiva evolutiva do próprio conceito de arte.

A reflexão sobre a arte e a criação artística materializou-se, pois, numa proposta de produção de juízos de teor estético “em primeira mão”, alguns dos quais inseminados nas escolhas de tendências artísticas posteriormente presentes em trabalhos efetuados pelos alunos. Visitem-se alguns desses trabalhos.



Teorema II

"Princípios práticos são proposições que contêm uma determinação geral da vontade, a qual inclui em si várias regras práticas. São subjetivos, ou máximas, quando a condição é considerada pelo sujeito como válida unicamente para a sua vontade; mas são objetivos, ou leis práticas, quando essa condição é reconhecida como objetiva, isto é, válida para a vontade de todo o ser racional."
KANT, I., Crítica da Razão Prática, Ed. 70, p. 29.


Teorema II


"Todos os princípios práticos materiais são, enquanto tais, no seu conjunto, de uma só e mesma espécie e classificam-se sob o princípio geral do amor de si ou da felicidade pessoal.
O prazer proveniente da representação da existência de uma coisa, na medida em que ele deve ser um princípio determinante do desejo dessa coisa, funda-se na capacidade de sentir do sujeito, porque depende da existência de um objeto; por conseguinte, pertence ao sentido (sensibilidade [Gefühl]), e não ao entendimento, que exprime uma relação da representação a um objeto (Objekt), segundo conceitos, mas não ao sujeito, segundo sentimentos. Portanto, ele é prático só enquanto a sensação de agrado, que o sujeito espera da realidade do objeto (Gegenstand), determina a faculdade de desejar. Ora, a consciência que um ser racional tem do agrado da vida, que acompanha ininterruptamente toda a sua existência, é a felicidade (Glückseligkeit), e o princípio de fazer desta felicidade o supremo princípio determinante é o princípio do amor de si. Por conseguinte, todos os princípios materiais que colocam a causa determinante do livre arbítrio no prazer ou desprazer, que se deve sentir a partir da realidade de um objeto qualquer, são inteiramente da mesma espécie, na medida em que, no seu conjunto, pertencem ao amor de si ou da felicidade pessoal."

KANT, I., Crítica da Razão Prática, Ed. 70, pp. 32-33.

O meu coração bate por ti

"O amor é um sentimento ou uma emoção? A mesma palavra abrange as duas dimensões. A emoção de amor é intensa, violenta, desencadeia sensações físicas fortes, o coração/músculo é solicitado, sentimo-lo vibrar, estremecer, bater… (É daí que vem a expressão “O meu coração bate por ti”?)
O sentimento de amor constrói-se dia após dia, alimenta-se com a emoção de amor mas não se reduz a ela. Sentimo-nos contentes, felizes com o outro numa relação que já não precisa da presença permanente. O laço existe, estamos prontos para atravessar juntos as dificuldades da vida. A felicidade inscreve-se na duração. No casal, cumplicidade e solidariedade tornam-se mais importantes que erotismo e sedução. As palpitações cardíacas dão lugar a vibrações mais subtis. Como descrevê-las? Alguns evocam um fogo no peito, formigueiros, uma sensação de onda que sobe, invade e se apaga docemente deixando-nos saciados e serenos. A emoção de amor está muito presente no início de uma relação, na descoberta do universo do outro e no fogo da paixão. Surge de novo quando há um reencontro depois de uma separação, quando alguém que nos é próximo está em perigo… mas também no momento de um ramo de flores, de uma atenção terna e de cada vez que se pronunciam estas deliciosas palavras: “Amo-te”.
Tanto o amor materno como o paterno são também sentimentos que se escoram numa relação tecida dia após dia.
O sentimento de amor instala-se progressivamente; para durar precisa de ser pontuado por emoções ternas."


FILLIOZAT, I., A Inteligência do Coração. Rudimentos de Gramática Emocional,
Editora Pergaminho, 2001, pp.185-186.


A morte como o último exame da existência

"Será que a morte é temível? Será que pode ser domesticada ou acolhida quase como amiga? Encontramos pessoas que não têm medo da morte, outras que, em sentido contrário, não querem pensar nela por causa do terror que lhes inspira. E as perguntas a seu respeito não faltam: porque é que a morte existe? O que acontece na morte? Será que perderemos todo o contacto com as pessoas que temos conhecido em vida? Porque é que a morte nos obriga a abandonar tudo aquilo que fez a espessura dos nossos desejos e, mais radicalmente, do nosso desejo de viver? Tive desde há muito tempo a ideia, ou mais exatamente, a impressão de que a morte é o último exame da vida, e mesmo o mais difícil. Isso pressupõe que a morte é figurada como uma prova que nos é imposta, a morte põe-nos à prova. É estranho que o termo prova signifique ao mesmo tempo um exame, um periculum, uma espécie de perigo que não se pode evitar nem contornar, mas também um ato ou um testemunho destinado a apresentar provas."


Viver a morte – sabedoria e tempo vivido, Isabel Carmelo R. Renaud, in O fim da vida, José Henrique Silveira de Brito (coord.), Publicações da Faculdade de Filosofia – UCP, Braga, 2007, p. 145.

A dimensão simbólica do Homem

Digamos (…) que não basta (…) a dimensão dos sinais, para “fazer” a nossa humanidade. Aliás, os semióticos mais rigorosos, como por exemplo um dos pais fundadores, Thomas Sebeok, nunca pretenderam com ela fazer discriminações entre nós seres humanos e o resto do universo animal ou vegetal, até fazer disso uma espécie de condição kantiana transcendental da experiência. Sebeok tentou fundar uma grande e omnicompreensiva zoosemiótica. O Homem, portanto, não é um animal segnicum ou, pelo menos, esta é a condição não suficiente para constituir a sua humanidade; será preciso defini-lo antes, como sustentava Ernest Cassirer, animal symbolicum

GEVALÉRY, P., Discurso sobre a Estética, Tomo II, Lisboa, 1989, p.54.

sábado, 7 de junho de 2014

As Gerações Futuras

Será que podemos ter a certeza que as futuras gerações irão apreciar a natureza? Não se sentirão, talvez, mais felizes sentadas em centros comerciais com ar condicionado, entretidas em jogos de computador mais sofisticados do que alguém pode imaginar? É possível. Mas há diversas razões para não atribuirmos demasiado peso a esta possibilidade. Em primeiro lugar, a tendência tem-se manifestado na direcção oposta: o apreço pela natureza nunca foi tão grande como actualmente, em especial nos países que resolveram os problemas da pobreza e da fome e onde restam relativamente poucas terras virgens. Esta é valorizada como algo de extrema beleza, como um repositório de conhecimento científico ainda por conquistar, pelas oportunidades recreativas que proporciona e porque muita gente fica feliz por saber que ainda resta alguma coisa natural, que a civilização moderna deixou relativamente intata. Se, como todos temos esperança, as futuras gerações forem capazes de satisfazer as necessidades básicas da maioria das pessoas, é de esperar que, durante séculos, também elas valorizarão a natureza pelas mesma razões que nós.
Os argumentos a favor da preservação do meio natural baseados na sua beleza são por vezes tratados como se tivessem pouco valor, por serem «meramente estéticos». Trata-se de um erro. Dedicamos um grande esforço à conservação dos tesouros artísticos de civilizações humanas anteriores. É difícil imaginar qualquer ganho económico que estivéssemos dispostos a aceitar como compensação adequada para, por exemplo, a destruição dos quadros do Louvre. Como deveremos comparar o valor estético da natureza com as pinturas do Louvre? Neste caso talvez o juízo se torne inevitavelmente subjectivo; de modo que relatarei a minha própria experiência. Contemplei quadros no Louvre e em muitas das outras galerias da Europa e dos Estados Unidos. Penso que tenho um sentido razoável de apreciação das belas-artes; contudo, não tive, em museu algum, experiências que tivessem preenchido o meu sentido estético da forma como me sinto realizado quando caminho por um cenário natural e faço uma pausa para admirar do alto de um pico rochoso a paisagem de um vale coberto de floresta ou me sento junto de uma torrente que serpenteia sobre seixos cobertos de musgo no meio de altos fetos, que crescem à sombra do dossel da floresta. Creio não ser o único a sentir tal exaltação; para muita gente, a natureza constitui a fonte dos mais altos sentimentos de emoção estética, elevando-se a uma intensidade quase espiritual.
Apesar de tudo é possível que este apreço pela natureza não venha a ser partilhado pelas pessoas que viverem daqui a um século ou dois. Mas, se a vida selvagem pode ser fonte de uma alegria e de uma satisfação profundas, isso será uma grande perda. Até certo ponto, depende de nós que as futuras gerações gostem ou não da natureza; trata-se, pelo menos, de uma decisão sobre a qual podemos exercer alguma influência. Mediante a nossa preservação da natureza, damos a oportunidade às futuras gerações e, por meio de livros e filmes, criamos uma cultura que pode ser transmitida aos nossos filhos e aos nossos netos. Se sentirmos que um passeio pela floresta, com os sentidos sintonizados para a apreciação dessa experiência, é uma forma mais gratificante de passar o dia do que entretermo-nos com jogos de computador, ou se sentirmos que levar comida e abrigo na mochila para passarmos uma semana a andar de bicicleta por um ambiente natural intacto contribuirá mais para desenvolver o carácter do que ficar a ver televisão durante um período equivalente, nesse caso devemos encorajar as futuras gerações a ter sentimentos de apreço pela natureza; se acabarem por preferir jogos de computador, é sinal de que não conseguimos esse intento.
Por fim, se mantivermos intactas as extensões naturais que ainda existirem, as futuras gerações terão pelo menos a escolha de largar os jogos de computador e sair para contemplar um mundo que não foi criado por seres humanos. Se destruirmos o meio natural, essa opção perde-se para sempre.

Peter Singer, Ética Prática, 1993, trad. de Álvaro Augusto Fernandes, pp. 294-296.


domingo, 1 de junho de 2014

O Natal está a aproximar-se

O Natal está a aproximar-se. É um facto conhecido por todos, porém nem todos vivem ou experienciam o natal, tal como eu o conheço. É isso que agora irei partilhar…
O Natal é a altura do ano pela qual todos os elementos da nossa família anseiam. É a oportunidade de em cada ano que passa, celebrarmos o que nos une e nos é de mais precioso. Todos os anos acontece a mesma azáfama! Fazemos tudo juntos. Todos, sem exceção, têm tarefas a executar e que acontecem como pura magia. Não são estabelecidos quaisquer planos, ou estratégias de ação. Tudo aparece feito. Os mais pequenos ocupam-se, antecipando as brincadeiras e o entretenimento, os adultos preparam o manjar com o qual nos iremos deleitar e os menos jovens, porém indispensáveis, recordam com saudade o tempo em que foram meninos...

A cumplicidade que nos une dispensa a definição de timings e de papéis a desempenhar. É tudo muito simples e acontece com igual simplicidade. Vive-se um enorme rebuliço, que a todos envolve e a todos toca verdadeiramente. Não conseguiríamos sobreviver ao resto do ano sem esta renovação de afetos e sem esta possibilidade de partilhar, aquilo que nos é mais precioso: o amor que nos une e que nos faz sentir vivos e únicos. Este eterno retorno, anual e intemporal é o nosso “nascimento do deus menino”, que não se deixa materializar e que não significa Natal. É difícil, por aqui se vê, apontar aspetos negativos ou argumentar contra este Natal... Talvez o aspeto negativo a apontar seja a sua ausência como tal e a forma como tantas vezes é reduzido a nada… Há troca de prendas e não há troca de afetos. Há troca de emails em que nada se transmite e nada se faz sentir. Reenviam-se palavras feitas por outrem, que não singularizam a importância de cada pessoa, e que matam o Natal. 

Texto do aluno Luís Fernando de Faria Ferreira, 12.º1 ( EBS DR. Luís Maurílio da Silva Dantas), distinguido com uma Menção Honrosa no concurso “Uma Aventura Literária 2014”, edições Caminho



domingo, 18 de maio de 2014

O racismo não tem fundamento científico



«Os seres humanos acreditaram muito tempo que o Sol girava em torno de uma Terra imóvel. O senso comum pretendia também que se classificasse a humanidade segundo as semelhanças físicas como a cor da pele, a forma da cabeça, o cabelo, o tamanho...
Durante dois séculos, os antropólogos, alguns entre os mais eminentes da sua época, tentaram confortar estas evidências, forjando o conceito de raça. Os seus trabalhos serviram ao longo da história moderna para justificar as piores atrocidades, todas as barbáries.
As descobertas da Biologia moderna, em particular as da Genética, destruíram totalmente aquelas teorias potencialmente criminosas.
Como diz o Prémio Nobel François Jacob: "Para a nossa espécie, o conceito de raça não é um conceito operacional". Mediante a análise dos sistemas sanguíneos, das defesas imunitárias, a exploração do genoma, a Genética teve acesso às nossas caraterísticas moleculares escondidas e forneceu-nos revelações espetaculares: à exceção dos verdadeiros gémeos, cada um dos cinco biliões de seres humanos do Planeta tem um património genético diferente. Cada indivíduo é único. Paradoxalmente a Genética mostra-nos também o extraordinário parentesco entre todas as populações. Estas têm todas aproximadamente os mesmos genes, havendo todavia frequências variáveis de acordo com os laços mais ou menos recentes que estabeleceram entre si.
Os avanços científicos permitem mesmo traçar a história da humanidade. As conclusões de apaixonadas investigações de várias equipas de biólogos, confirmadas pelos trabalhos de Paleontologia, revolucionaram as ideias sobre a evolução do homem moderno. Afirmam a origem única de todas as populações atuais. O Homo sapiens teria nascido há 100 000 anos aproximadamente, algures entre a África Oriental e o Médio Oriente. As populações ter-se--iam diferenciado em seguida de modo contínuo, de acordo com as suas migrações. E as semelhanças físicas? Elas resultam de uma seleção relativamente rápida onde intervém de facto a semelhança dos ecossistemas originais. É esta seleção que explica, por exemplo − escreve André Langaney −, as convergências entre Papuas e Africanos-Equatoriais, entre Tibetanos, Ameríndios dos Altos Andes e Esquimós, etnias geneticamente afastadas.
Se a noção de raça não tem fundamento, o racismo continua a existir. Há mudanças e relações sociais que o alimentam. Não obstante, a tarefa mais nobre da ciência é a de combater as ideias feitas e recebidas, os preconceitos, isto é, ir para lá das aparências.»
Editorial da revista Sciences et Avenir,
n.º 540, fevereiro de 1992.


quarta-feira, 14 de maio de 2014

A necessidade de Deus e de imortalidade

«O homem moderno pensou que, quando se tivesse visto livre de Deus, se teria libertado a si mesmo de tudo o que o reprimia e asfixiava. Em vez disso, descobriu que, ao matar Deus, também se matou a si mesmo.
Pois se Deus não existe, então a vida do homem torna-se absurda.
Se Deus não existe, então tanto o homem como o universo estão inevitavelmente condenados à morte. O homem, como todos os organismos biológicos, tem de morrer. Sem qualquer esperança de imortalidade, a vida do homem conduz apenas à sepultura. A sua vida é apenas uma fagulha na escuridão infinita, uma fagulha que aparece, treme luz e morre para sempre. Comparada com o tempo infinito, o tempo de vida humana é apenas um momento infinitesimal; e mesmo assim esta é toda a vida que alguma vez conheceremos. Portanto, teremos todos de estar cara a cara com aquilo a que o teólogo Paul Tillich chamou “a ameaça da não-existência”. Pois embora eu saiba agora que existo, que estou vivo, também sei que algum dia já não existirei, que já não irei ser, que irei morrer. Este pensamento é desconcertante e ameaçador: pensar que a pessoa a que chamo “eu mesmo” deixará de existir, que não existirei mais!
Lembro-me bastante bem da primeira vez que o meu pai me disse que um dia eu iria morrer. De alguma forma, enquanto criança, o pensamento nunca me tinha ocorrido. Quando ele me disse, assolou-me uma tristeza insuportável. E embora ele tentasse várias vezes assegurar-me de que ainda faltava muito tempo isso não parecia interessar. O facto inegável era que mais cedo ou mais tarde eu morreria e não existiria mais, e esse pensamento devastou-me. Com o tempo, aprendi, como todos nós, a aceitar simplesmente o facto. Todos nós aprendemos a viver com o inevitável. Mas a perceção de criança continua a ser verdadeira. Como o existencialista francês, Jean-Paul Sartre disse, várias horas ou vários anos não faz diferença nenhuma, uma vez que se tenha perdido a eternidade.
Quer isso ocorra mais cedo ou mais tarde, a perspetiva da morte e a ameaça da não-existência é um choque terrível. Mas encontrei uma vez um estudante que não sentia esta ameaça. Ele disse que tinha sido criado numa quinta e estava habituado a ver os animais nascerem e morrerem. Para ele, a morte era simplesmente uma coisa natural − uma parte da vida, por assim dizer. Surpreendeu-me quão diferentes eram as nossas duas perspetivas da morte e achei difícil compreender por que razão ele não sentia a ameaça da não-existência. Penso que encontrei a resposta anos mais tarde ao ler Sartre. Sartre observou que a morte não é ameaçadora conquanto a encaremos como a morte de outros, do ponto de vista de uma terceira pessoa, por assim dizer. É apenas quando a interiorizamos e a olhamos de uma perspetiva de primeira pessoa − “a minha morte: Eu vou morrer” − que a ameaça da não existência se torna real. Como Sartre chamou a atenção, muitas pessoas a meio da vida nunca assumem esta perspetiva de primeira pessoa; podemos até olhar para a nossa própria morte de um ponto de vista de terceira pessoa, como se fosse a morte de outra pessoa ou mesmo de um animal, como fazia o meu amigo. Mas o verdadeiro significado existencial de a minha morte pode apenas ser apreciado de uma perspetiva de primeira pessoa, à medida que compreendo que vou morrer e deixar de existir para sempre. A minha vida é apenas uma passagem momentânea do esquecimento para o esquecimento.
O universo enfrenta igualmente a morte. Os cientistas dizem-nos que o universo está em expansão e que todas as coisas nele se afastam cada vez mais umas das outras. À medida que isso acontece, o universo torna-se cada vez mais e mais frio e a sua energia esgota-se. Por fim, todas as estrelas se extinguirão e toda a matéria colapsará em estrelas mortas e em buracos negros. Não existirá qualquer luz; não existirá qualquer calor; não existirá qualquer vida; apenas os cadáveres de estrelas e galáxias mortas, expandindo-se para sempre na escuridão infinita e os recessos frios do espaço − um universo em ruínas. O universo inteiro dirige-se irreversivelmente para o seu túmulo. Por conseguinte, não é apenas a vida de cada pessoa individual que está perdida; é a totalidade da raça humana que está perdida. O universo precipita-se para a sua extinção inevitável − a morte está escrita em toda a sua estrutura. Não há fuga. Não há esperança. Se Deus não existe, então o homem e o universo estão perdidos. Como prisioneiros condenados à morte, esperamos a nossa execução inevitável. Não há Deus e não há imortalidade. Qual é a consequência disto? Segue-se que a própria vida é absurda. Segue-se que a vida que temos não tem propósito, valor ou significado últimos.

Craig, William Lane. «The Absurdity of Life Without God» in Klemke, E. D. The Meaning of Life, pp. 40-42. (adaptado)


domingo, 11 de maio de 2014

Os animais também têm direitos

«Talvez chegue o dia em que a restante criação animal venha a adquirir os direitos de que só puderam ser privados pela mão da tirania. Os Franceses já descobriram que o negro da pele não é razão para um ser humano ser abandonado sem remédio aos caprichos de um torcionário.

É possível que um dia se reconheça que o número de pernas, a pilosidade da pele ou terminação do sacrum são razões igualmente insuficientes para abandonar um ser sensível ao mesmo destino. Que outra coisa poderia traçar uma linha insuperável? Seria a faculdade da razão ou, talvez, a faculdade do discurso? Mas um cavalo adulto é, para lá de toda a comparação, um animal mais racional, assim como mais sociável que um recém-nascido de um dia, de uma semana ou mesmo de um mês. Mas suponhamos que não era assim; de que serviria? A questão não está em saber se eles podem pensar ou falar, mas sim se podem sofrer.»

                                                                                           Jeremy Bentham, Princípios da Moral e da Legislação

O cientista e o artista

Um amigo meu que é artista assume às vezes atitudes de que discordo. Por exemplo, pega numa flor e diz: - Vê como é bela! – e eu concordo. Mas depois acrescenta: - Eu, que sou artista, consigo apreciar a beleza de uma flor, enquanto tu, que és cientista, desmancha-la toda, e isso é triste. – Isto dá-me a ideia de que ele não regula bem.
                Em primeiro lugar, a beleza que ele vê é acessível a todos – inclusive a mim, segundo creio. Embora talvez não possua o seu requinte estético, julgo ser capaz de apreciar a beleza de uma flor. Mas, simultaneamente, vejo na flor muito mais do que ele: consigo imaginar as células no seu interior, que têm igualmente a sua beleza, já que esta não existe só na escala do centímetro; encontramo-la também em porções muito menores.
                Há complicadas ações das células e outros processos. O facto de se ter verificado uma evolução nas cores das flores, de forma a atraírem os insetos para as polinizar, é interessante, porque significa que os insetos conseguem ver as cores. Daí somos levados a perguntar se o sentido estético existe também nas formas de vida inferiores. O conhecimento científico, junto ao entusiasmo, ao mistério e ao respeito por uma flor, torna possível toda a espécie de perguntas interessantes.


Richard Freynman (1998), Nem sempre a Brincar, Sr. Freynman, Lisboa, Gradiva, p.11.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Uma Crítica a Popper.

Quando um cientista aceita uma lei, está a recomendar às outras pessoas que confiem nela — muitas vezes, que confiem nela em contextos práticos. Popper só consegue apresentar a sua perspectiva peculiar sobre a indução porque arranca completamente a ciência do contexto em que ela surge efectivamente: o contexto de pessoas que tentam mudar e controlar o mundo. As ideias não são apenas ideias; são guias para a acção. As nossas noções de «conhecimento», «probabilidade», «certeza», etc., estão ligadas entre si e são usadas frequentemente em contextos nos quais a acção está em questão: poderei ter confiança numa certa ideia? Deverei confiar nela à experiência, com uma certa cautela? Será necessário avaliá-la melhor?
      Se afirmações como «esta lei está muito corroborada» ou «esta lei é aceite cientificamente» significassem apenas «esta lei passou testes rigorosos» — e se não se sugerisse de forma alguma que uma lei que passou testes rigorosos provavelmente passará novos testes, como os envolvidos nas suas aplicações ou nas tentativas de a aplicar —, então Popper teria razão, mas nesse caso a ciência seria uma actividade sem a menor importância. Não teria importância prática porque os cientistas nunca nos diriam que uma lei ou teoria é segura para efeitos práticos. E não teria importância para a nossa compreensão do mundo, já que, segundo a perspectiva de Popper, os cientistas nunca nos dizem que uma teoria é verdadeira ou sequer provável. Saber que certas «conjecturas» (segundo Popper, todas as leis científicas são «conjecturas provisórias») ainda não foram refutadas é o mesmo que nada compreender.
      Dado que a aplicação de leis científicas implica a antecipação de sucessos futuros, Popper não tem razão quando defende que a indução é desnecessária. Mesmo que os cientistas não antecipem indutivamente o futuro (o que, obviamente, é falso), as pessoas que aplicam leis e teorias científicas fazem isso. E «não faça induções» dificilmente seria um conselho razoável a dar-lhes.
                                                                               Hilary Putnam, A “Corroboração” de Teorias», 1978, trad. de Pedro Galvão, p.122


A Profundidade das Teorias Científicas.

Sugiro que as nossas leis ou as nossas teorias devem ser universais, isto é, devem fazer afirmações sobre o mundo ¾ sobre todas as regiões espaciotemporais do mundo. Sugiro, além disso, que as nossas teorias fazem afirmações sobre propriedades estruturais ou relacionais do mundo, e que as propriedades descritas numa teoria explicativa devem ser, em algum sentido, mais profundas do que as da teoria a explicar. Julgo que a expressão «mais profundas» resiste a qualquer tentativa de análise lógica exaustiva, mas ainda assim é um guia para as nossas intuições.
            No entanto, parece haver uma espécie de condição suficiente para a profundidade, ou para graus de profundidade, que pode ser logicamente analisada. Vou tentar explicar isto com a ajuda de um exemplo da história da ciência.
            É do conhecimento geral que a dinâmica de Newton realizou uma unificação da física terrestre de Galileu e da física celeste de Kepler. Diz-se frequentemente que a dinâmica de Newton pode ser induzida a partir das leis de Galileu e de Kepler, e chegou-se mesmo a dizer que pode ser estritamente deduzida a partir delas. Mas isto não é verdade; de um ponto de vista lógico, a teoria de Newton em rigor contradiz tanto a teoria de Galileu como a de Kepler (embora, obviamente, estas últimas teorias possam ser obtidas como aproximações logo que tenhamos à nossa disposição a teoria de Newton). Por esta razão, é impossível derivar a teoria de Newton a partir da de Galileu, da de Kepler ou de ambas, seja por dedução ou por indução, pois nem uma inferência dedutiva, nem uma inferência indutiva, pode avançar de premissas consistentes para uma conclusão que contradiz formalmente as premissas de que partimos.
            É importante notar que das teorias de Galileu ou de Kepler não obtemos o menor indício sobre como estas teriam de ser ajustadas ¾ que falsas premissas teriam de ser abandonadas ou que condições teriam que ser estipuladas ¾ se tentássemos avançar a partir delas para outras teorias com uma validade mais geral, como a de Newton. Só depois de estarmos na posse da teoria de Newton podemos descobrir se, e em que sentido, as teorias anteriores podem ser suas aproximações. Podemos exprimir este facto resumidamente dizendo que, embora do ponto de vista da teoria de Newton as de Galileu e de Kepler sejam aproximações excelentes a certos resultados newtonianos específicos, não podemos dizer que a teoria de Newton seja, do ponto de vista das outras duas teorias, uma aproximação aos seus resultados. Tudo isto mostra que a lógica, seja ela dedutiva ou indutiva, nunca pode realizar o passo que vai destas teorias à dinâmica de Newton. Só a imaginação pode realizar esse passo. Logo que ele tenha sido realizado, podemos dizer que os resultados de Galileu e de Kepler corroboram a nova teoria.
            Aqui, no entanto, não estou tão interessado na impossibilidade da indução como no problema da profundidade e, no que diz respeito a este problema, podemos de facto aprender algo a partir do nosso exemplo. A teoria de Newton unifica a de Galileu e a de Kepler mas, longe de ser uma mera conjunção dessas duas teorias, [...] corrige-as ao mesmo tempo que as explica. A tarefa explicativa original era a dedução dos resultados anteriores, mas esta tarefa é abandonada, porque não se deduzem os resultados anteriores, deduzindo-se algo melhor no seu lugar: novos resultados que, sob as condições específicas dos velhos resultados, aproximam-se muito deles numericamente ao mesmo tempo que os corrigem.
            Sugiro que, sempre que nas ciências empíricas uma nova teoria com um nível de universalidade mais elevado explica com sucesso uma teoria anterior corrigindo-a, temos um indício seguro de que a nova teoria penetrou mais fundo do que as teorias anteriores.

Karl Popper, Conhecimento Objectivo, pp. 110-111, trad. de Pedro Galvão.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Duas aplicações do imperativo categórico de Kant

Uma pessoa vê-se pressionada pela necessidade de pedir dinheiro emprestado. Ela sabe muito bem que não será capaz de pagar a dívida, mas também vê que nada lhe será emprestado a menos que prometa solenemente pagar a dívida num determinado prazo. Sente-se tentado a prometer; mas ainda lhe sobra suficiente consciência para se perguntar se não será  contrário ao dever deitar mão de tal recurso?
Suponha-se que ela se decidia a fazê-lo; a máxima da sua ação seria a seguinte: quando creio estar a precisar de dinheiro, vou pedi-lo emprestado, prometendo pagá-lo, ainda que saiba que isso nunca acontecerá. Ora, este princípio de amor-próprio, ou do nosso próprio benefício, talvez seja consistente com todo o meu bem-estar futuro, mas a questão agora é saber se é correto. Consequentemente, transformo a imposição de amor-próprio numa lei universal, e formulo a pergunta como se segue: como seriam as coisas se a minha máxima se tornasse uma lei universal? Ora, vejo então imediatamente que nunca poderia ser uma lei universal da natureza, em harmonia consigo mesma, tendo antes necessariamente de se contradizer. Pois a universalidade de uma lei segundo a qual todas as pessoas que se vejam em necessidades poderiam prometer fosse o que fosse com a intenção de não cumprir, tornaria impossível a promessa e a finalidade que podemos ter em vista ao prometer, dado que ninguém acreditaria que lhe estavam a prometer algo, antes rindo perante tal elocução, por ser mentira.
[...] Outra pessoa prospera ao mesmo tempo que vê outros que lutam com grandes dificuldades (e que ela poderia perfeitamente ajudar), e pensa: que tenho eu e ver com isso? Que todos sejam tão felizes quanto os céus o quiserem, ou quanto o consigam por si mesmos, nada deles irei tirar, nem sequer os invejarei; apenas não me apetece contribuir com seja o que for para o seu bem-estar, ou para o assistir quando estiver com necessidades. Ora, certamente que se esta maneira de pensar se tornasse uma lei universal da natureza, o género humano poderia muito bem subsistir, e certamente que melhor do que quando toda a gente fala de compaixão e benevolência, desenvolvendo até o zelo para executar tais ações ocasionalmente, mas também trapaceia sempre que pode, vende o direito dos seres humanos, ou o infringe de outro modo.
 Mas mesmo que seja possível que uma lei universal da natureza poderia muito bem subsistir segundo essa máxima, é ainda assim impossível querer que tal princípio se aplique em todo o lado como uma lei da natureza. Pois um querer que assim fizesse entraria em conflito consigo mesmo, pois muitos casos poderão ainda surgir em que precisamos do amor e da compaixão dos outros e em que, devido a tal lei da natureza oriunda da sua própria vontade, essa pessoa impedir-se-ia a si mesma de ter qualquer esperança na assistência que deseja para si mesma.

    KANT,Immanuel, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, 1785, trad. Desidério Murcho, pp. Ak IV: 422-423

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Frustração e Apatia

"Um aspeto desconcertante do comportamento humano é a tendência para que situações semelhantes levem diferentes indivíduos a comportamento diametralmente opostos. Embora a agressão ativa seja uma reação comum à frustração, outra reação é o seu oposto- apatia, indiferença, afastamento, inatividade, desatenção. Não sabemos porque é que uma pessoa reage com agressão e outra com apatia à mesma situação frustradora, mas parece provável que a aprendizagem seja um fator importante; é possível aprender as reações à frustração da mesma forma que outros hábitos. A criança que bate encolerizada quando fica frutrada e descobre então que a sua necessidade é satisfeita (seja através dos seus esforços, seja porque um dos seus pais se apressa a acalmá-la), da próxima vez que os seus motivos sejam contrariados recorrerá provavelmente ao mesmo tipo de comportamento. A criança cujas explosões agressivas nunca obtêm êxito, que verifica que é impotente para satisfazer as suas necessidades através do seu comportamento, pode recorrer à apatia e ao afastamento perante uma situação frustradora."
Hilgard, E. e Atkinson, R., Introdução à Psicologia, Nacional, 1980, p.511

Diário de Anne Frank

"Nem sempre me tratam da mesma maneira. Um dia pertenço à classe dos adultos e posso saber tudo, e no dia seguinte a Anne não passa de um ser inexperinete que julga ter aprendido alguma coisa nos livros mas que, na realidade, não sabe coisa de jeito. Ora eu não sou um bebé nem uma boneca para os divertir. Tenho os meus ideais, o meu modo de pensar e os meus planos, embora ainda me falte a capacidade de traduzir tudo isto em palavras. Ai! tantas, tantas dúvidas que se me levantam quando estou só, à noite, ou mesmo durante o dia quando estou encerrada com toda esta gente que já não posso ver à minha frente e de que estou farta até não poder mais. Eles nada compreendem dos meus problemas. Assim, volto sempre ao meu diário. É ele o meu princípio e o meu fim. A ti, Kitty, nunca te falta a paciência e prometo-te que hei-de aguentar. Hei-de vencer a minha dor e consguir o meu caminho. Só gostava de ter, de vez em quando, um pouco de sucesso, de ser estimulada e encorajada, por alguém que tivesse amor!
Não me condenes! Por favor, compreende que, às vezes, não posso mais!
Frank, A., O Diário de Anne Frank, Livros do Brasil, s/d, pp.69-71



O Senso Comum

O senso comum julga-se dono de verdades eternas. Não tendo o refinamento da ciência, guardada as suas “verdades” com zelo e recusa-se a aceitar as teorias científicas que o contradigam. Assim é que o heliocentrismo teve de esperar cerca de dois séculos para se integrar na cultura geral, enquanto a teoria da evolução ainda está muito longe de ser consensualmente aceite.
O senso comum acredita que diferentes pessoas, vendo o mesmo fenómeno, veem sempre a mesma coisa. Isso é um puro equívoco; há figuras de cubos, pirâmides, escadas, rostos, etc. que examinadas, até pela mesma pessoa, podem mostrar-se, depois de alguns segundos., diferentes da forma como se mostravam a princípio. Quando duas pessoas olham uma dessas figuras, pode acontecer que num mesmo momento uma esteja a ver algo bem diferente do que a outra vê. A expressão “eu vi com os meus próprios olhos” não oferece garantia alguma de que seja verdade o que se diz.

Newton Freire Maia, A ciência por Dentro, Vozes, 1991, p.21.

domingo, 20 de abril de 2014

A cidade


"Observamos que toda a cidade é uma certa forma de comunidade e que toda a comunidade é constituída em vista de algum bem. É que, em todas as suas ações, todos os homens visam o que pensam ser o bem. É, então, manifesto que, na medida em que todas as comunidades visam algum bem, a comunidade mais elevada de todas e que engloba todas as outras visará o maior de todos os bens. Esta comunidade é chamada ‘cidade’, aquela que toma a forma de uma comunidade de cidadãos.
(…)
A cidade, enfim, é uma comunidade completa, formada a partir de várias aldeias e que, por assim dizer, atinge o máximo de autossuficiência. Formada a princípio para preservar a vida, a cidade subsiste para assegurar a vida boa. É por isso que toda a cidade existe por natureza, se as comunidades primeiras assim o foram. A cidade é o fim destas, e a natureza de uma coisa é o seu fim, já que, sempre que o processo de génese de uma coisa se encontre completo, é a isso que chamamos a sua natureza, seja de um homem, de um cavalo ou de uma casa. Além disso, a causa final, o fim de uma coisa, é o seu melhor bem, e a autossuficiência é, simultaneamente, um fim e o melhor dos bens."



Aristóteles, Política, Coleção Veja, 1998, 1252a – 1253a.

Eugenia: o nome e a coisa


"(…) O termo eugenia foi cunhado por Francis Galton. Contudo, sem o nome, a defesa da eugenia é um elemento recorrente na história. A leitura de clássicos como A República, de Platão, ou, mais tarde, A cidade do Sol, de Tomás Campanela, permite recortar duas linhas de força: a eliminação de seres humanos com malformações genéticas, a chamada eugenia negativa, e uma política de promoção de casamentos entre os melhores (eugenia positiva). Um novo impulso ao eugenismo é dado pela biologia molecular, que, como sublinha, Diego Garcia, surge no “interior de um programa eugénico”.
Se olharmos para o último século de história, verificamos que o chamado “eugenismo científico” teve refracções políticas, alicerçando um eugenismo centralizado, em regimes democráticos (por exemplo, os EUA ou os países escandinavos) ou totalitários (paradigmaticamente, a Alemanha nacional-socialista). Assentava em políticas de esterilização e de proibição de casamentos e, no caso do nazismo, na pura e simples eliminação (programas da chamada – impropriamente – “morte piedosa”). Em termos históricos, verifica-se que, entre nós, não sendo desconhecido esse debate, e tendo até Egas Moniz proposto, de uma forma limitada, a esterilização, a matriz cultural funcionou (…) como uma barreira.
Se, tradicionalmente, tínhamos um eugenismo de Estado, centralizado ou autoritário, assistimos agora a um processo de transição para um eugenismo individual ou liberal, de um eugenismo privilegiando a espécie para um eugenismo centrado em escolhas individuais e entregue, fundamentalmente, ao mercado. A novíssima revolução genética disponibilizou quer ao nível do diagnóstico, quer da intervenção, uma panóplia de possibilidades que levanta novos problemas, tocando na “natureza humana”, entendida como dotação genética. (…)"

João Carlos Loureiro, in Jürgen Habermas, O Futuro da Natureza Humana. A Caminho de uma Eugenia Liberal?, Almedina, 2006, pp. 10-12.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Maturidade Moral


Em sociedades moralmente sãs, o comum dos mortais segue a sua voz íntima, a maior parte das vezes inconscientemente, não rouba nem mata, porque, num mundo de pessoas responsáveis, a sua agulha magnética moral funciona normalmente. Em épocas de revolução e de crise, pelo contrário […], a consciência moral torna-se insegura e incerta.
[…] A fuga à responsabilidade é o mais claro indício de falência de maturidade moral. Só pela sua aceitação nos libertaremos, só pela participação responsável na vida do Estado nos tornaremos cidadãos; só pela aceitação da responsabilidade pelas nossas ações nos tornaremos pessoas. Mesmo os grupos e as nações só alcançam o estádio de maturidade e se tornam, em sentido próprio, civilizados quando satisfazem estas exigências. Porque é isto essencial? Pelo facto de, sem fundamento moral, ordem alguma de grupos humanos ser possível, desde a família ao Estado e à comunidade dos povos. Não só os fundamentos últimos do direito são de espécie moral, mas também uma ordem social não se pode manter sem normas éticas.

                                                                 FRITZ Heinemann, A Filosofia do Século XX (adaptado)

segunda-feira, 31 de março de 2014

A consciência nasce na Sociedade

"É difícil o momento em que nasce a consciência moral. O seu despertar é o da razão e a razão não é insuflada do exterior para a criança num determinado instante. Traz a razão em si desde o nascimento, mas como uma aptidão privada ao princípio das condições do seu exercício. A
A sociedade é o lugar onde nasce a consciência. Não a cria mas ajuda-a a constituir-se. O adulto é respeitado e temido pela criança e as suas ordens são, para ela, o próprio dever. Com Piaget, podemos distinguir dois tipos de relações sociais: "as relações sociais de coação, que consistem em impor do exterior ao indivíduo um sistema de regras de conteúdo obrigatório, e as relações sociais de cooperação, cuja essência consiste em fazer surgir no interior dos espíritos a consciência das normas ideais que comandam todas as regras". As primeiras fundam-se num respeito unilateral, as segundas num respeito mútuo. O autor opõe à ação dos pais a exercida sobre a criança pelo grupo dos seus coetâneos, ação de cooperação mais apta a suscitar a reciprocidade e a autonomia. Seja como for, a tarefa de educação consistirá em conduzir a criança da coação suportada ao dever cumprido e amado, do respeito cedo ao respeito mútuo, das ordens impostas à cooperação. E isto não é impossível mesmo no seio da família.
Meio social, exemplos, tradições, mas também grau de inteligência e nível de moralidade, constituem as causas contingentes que moldam uma consciência. Nenhum escândalo há, pois, em ver as diferentes conceções que, segundo os lugares e os tempos, os homens têm do dever. O que permanece invariável é a ideia de que há um dever; o que varia é o conteúdo do dever, mas quem é dotado de razão tem necessariamente o sentimento de uma ordem que se impõe à sua conduta."
Gabriel Madinier, La conscience morale

domingo, 16 de março de 2014

O envelhecimento

(...) o envelhecimento ocorre dentro de um contexto que envolve outras pessoas- amigos, colegas de trabalho, vizinhos e membros da família. Esta é a razão pela qual interdependência e solidariedade entre gerações (uma via de mão dupla, com indivíduos jovens e velhos, onde se dá e se recebe) são princípios relevantes para o envelhecimento ativo. A criança de ontem é o adulto de hoje e o avô ou avó de amanhã. A qualidade de vida que as pessoas terão quando avós depende não só dos riscos e oportunidades que experimentam durante a vida, mas também da maneira como as gerações posteriores oferecerão ajuda e apoio.
Envelhecimento activo. Um Projeto de Política de Saúde, OMS, Abril, 2002

sábado, 15 de março de 2014

Viver sem Filosofar...

"Viver sem filosofar é como ter os olhos sem nunca procurar abri-los e o prazer de ver todas as coisas que a nossa vista alcança não se compara à satisfação que confere o conhecimento do que se encontra pela Filosofia; e, enfim, que este estudo é mais necessário para orientar as ações e conduzir-nos na vida do que o uso dos olhos nos guiar nos passos. Os animais irracionais que apenas possuem o corpo para conservar; ocupam-se, continuamente, em procurar alimentá-lo; mas os homens, cuja parte principal é o espírito, deveriam primeiramente usar o tempo na procura da sabedoria, o seu verdadeiro alimento. Estou convencido também que muitos há que não deixariam de o fazer, se tivessem esperança de o conseguir e soubessem que disso são capazes. Não existe pessoa, por menos elevada que seja que, embora permanecendo fortemente ligada aos objetos dos sentidos, não se afaste algumas vezes deles para desejar um outro bem maior; ainda    que ignore, com frequência, em que consiste. Aqueles que a fortuna mais favorece, que desfrutam plenamente de saúde, honras e riquezas, não estão mais isentos de tal desejo que os outros; pelo contrário, penso que são estes que suspiram com mais força por um outro bem, mais elevado do que todos aqueles que já possuem. Ora este bem mais elevado, considerado pela razão sem a intromissão da crença, não é outra coisa senão o conhecimento da verdade através das suas primeiras causas, isto é, sabedoria, da qual a Filosofia é o estudo"



Descartes, Princípios da Filosofia, Lisboa, Guimarães Ed., 1984, pp.31 e 32

Onde está Deus?



“Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar, ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
            Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino ao pé de uma lareira qualquer… Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro… (…)
            Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado na Fantasia. De um pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá a ideia de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma ideia Dele a quem possa amar… Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez não seja nunca esse o pai da minha alma”

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, vol.II Ática, 1982, pp. 14-15

segunda-feira, 10 de março de 2014

Obrigações Morais e Legais

  1. Quem quiser tornar-se um jogador de xadrez melhor deve estudar os jogos de Garry Kasparov;
  2. Quem quiser ir para a faculdade de direito deve inscrever-se nos exames de acesso.
Grande parte da nossa conduta é governada por tais “deves”. O padrão é: temos um determinado desejo (ser melhores jogadores de xadrez, ir para a faculdade de direito); reconhecemos que um certo percurso nos ajudará a obter o que desejamos (estudar os jogos de Kasparov, fazer a inscrição para os exames de acesso); e, por isso concluímos que devemos seguir o plano indicado.
Kant chamou a isto “imperativos hipotéticos” porque nos dizem o que fazer desde que tenhamos os desejos relevantes. (…) Uma vez que a força de obrigatoriedade do “deves” depende de termos ou não o desejo relevante, podemos escapar à sua força renunciando simplesmente ao desejo. (…)

Em contraste, as obrigações morais não dependem de desejos específicos que possamos ter. A forma de uma obrigação moral não é “Se queremos isto ou aquilo, então devemos fazer isto ou aquilo”. Os requisitos morais são, ao invés, categóricos: têm a forma “Deves fazer isto e aquilo, sem mais”. A regra moral não é, por exemplo, que devemos ajudar as pessoas se nos importamos com elas ou se temos outro objetivo que possamos alcançar ao auxiliá-las. A regra é, pelo contrário, que devemos ser prestáveis para as pessoas independentemente dos nossos desejos e necessidades particulares. É por isso que, ao contrário dos “deves” hipotéticos, não se pode evitar as exigências morais dizendo, simplesmente, “mas isso não me interessa”.
RACHELS, J., Elementos de Filosofia Moral, Gradiva, 2004, pp. 175-176.

As nossas ilusões

        

 A nossa geração quis dar o melhor às crianças e aos jovens. Sonhámos grandes sonhos para eles. Procurámos dar-lhes os melhores brinquedos, roupas, passeios e escolas. Não queríamos que eles andassem à chuva, se magoassem nas ruas, se ferissem com os brinquedos caseiros e vivessem as dificuldades pelas quais nós passámos.
      Colocámos uma televisão na sala. Alguns pais, com mais recursos, colocaram uma televisão e um computador no quarto de cada filho. Outros preencheram o tempo dos seus filhos com atividades, matriculando-os em cursos de inglês, informática, música.
      Tiveram uma excelente intenção, só não sabiam que as crianças precisavam de ter infância, necessitavam de inventar, correr riscos, dececionar-se, ter tempo para brincar e encantar-se com a vida. Não imaginavam o quanto a criatividade, a felicidade, a ousadia e a segurança do adulto dependiam das matrizes da memória e da energia emocional da criança. Não compreenderam que a televisão, os brinquedos manufaturados, a internet e o excesso de atividades bloqueavam a infância dos seus filhos.
Criámos um mundo artificial para as crianças e pagámos caro por isso. Produzimos sérias consequências no território das suas emoções, no anfiteatro dos seus pensamentos e no solo das suas memórias.
CURY, A.Pais Brilhantes, Professores Fascinantes, Editora Pergaminho Lda., 2004, pp. 11-12.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O Determinante da Amizade


“ Os amigos cuja afeição é baseada no interesse não amam um ao outro, por si mesmos, e sim por causa de algum proveito que obtêm um do outro. O mesmo raciocínio se aplica àqueles que se amam por causa do prazer; não é por seu caráter que gostamos das pessoas espirituosas; mas porque as achamos agradáveis. Logo, as pessoas que amam as outras por interesses amam por causa do que é bom para si mesmas, e aqueles que amam por causa do prazer amam por causa do que lhes é agradável, e não porque a outra pessoa é a pessoa que ama, mas porque ela é útil ou agradável”


                  ARISTÓTRELES, Ética a Nicomaco, 4ª ed, Trad. De Mário Kury, Ed. Universidade de Brasilia, 2001

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Argumentação e Procura da Verdade


     “A democracia baseia-se no pressuposto de que não há homens que nascem para mandar nem existem outros que nascem para obedecer, mas que todos nascemos com a capacidade de pensar e, portanto, com o direito político de intervir na gestão da comunidade da qual fazemos parte. Mas, para que os cidadãos possam ser politicamente iguais, é imprescindível que em contrapartida nem todas as suas opiniões sejam: deve haver algum meio de hierarquizar as ideias na sociedade não hierárquica, potenciando as mais adequadas e afastando as erróneas ou prejudiciais. Numa palavra, procurando a verdade. É exatamente esta a missão da razão, cujo uso todos partilhamos ( antigamente as verdades sociais eram estabelecidas pelos deuses, pela tradição, pelos soberanos absolutos, etc.). Na sociedade democrática, as opiniões de cada um são fortalezas ou castelos onde se encerram como forma de auto afirmação pessoal: “ter” uma opinião não é ter uma propriedade que ninguém tem direito a tirar-nos. Oferecemos a nossa opinião aos outros para que a debatam e, por seu lado, a aceitem ou a refutem e não apenas para que saibam “ onde estamos e quem somos”. E, desde logo, nem todas as opiniões são igualmente válidas: valem mais as que tenham melhores argumentos a seu favor, as que melhor resistem à prova de fogo do debate com as objeções que lhes são colocadas.
     Se não queremos que sejam os deuses ou certos homens privilegiados que usurpem a autoridade social ( quer dizer, que sejam quem decide qual é a verdade que convém à humanidade) não resta outra alternativa que submetermo-nos à autoridade da razão como via para a verdade. Mas a razão não está  situada como árbitro semidivino acima de nós para conciliar as nossas disputas, mas funciona dentro de nós e entre nós. Não só temos que ser capazes de exercer a razão nas nossas argumentações mas também – e isto é muito importante e talvez ainda mais difícil – devemos desenvolver a capacidade de ser convencidos pelas melhores razões, venham elas de quem vierem. Não respeita a autoridade democrática da razão quem só sabe manejá-la a favor das suas teses mas considera humilhante ser persuadido pelas razões opostas. Não basta ser racional, quer dizer, aplicar argumentos racionais a coisas ou factos, mas é não menos imprescindível ser razoável, ou seja, acolher nos nossos raciocínios o peso argumental de outras subjetividades que também se exprimem racionalmente. A partir da perspetiva racionalista, a verdade procurada é sempre resultado, não ponto de partida: essa procura inclui a conversação entre iguais, a polémica, o debate, a controvérsia. Não como afirmação da sua subjetividade mas como via para atingir uma verdade objetiva através das múltiplas subjetividades. Se sabemos argumentar mas não sabemos deixar-nos persuadir, far-nos-á falta um chefe, um deus, ou um Grande Perito que finalmente decida o que é verdade para todos”

                                                                       Fernando Savater, As Perguntas da Vida