terça-feira, 9 de dezembro de 2014
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Dia Mundial da FILOSOFIA
No próximo dia [20] (…), celebra-se o Dia Internacional da Filosofia, para chamar a atenção para a sua importância fundamental.
Mas, afinal, o que é e para que serve a Filosofia? D. Huisman e A. Vergez (…) escrevem, não sem razão, que há duas palavras que fazem do Hamlet “a peça filosófica por excelência”. Primeiro, há o famoso solilóquio: (…) “ser ou não ser: eis a questão”, e, depois, quando Polónio pergunta a Hamlet o que lê, este responde: (…) “palavras... palavras... palavras...” Alguns pensarão que a Filosofia não passa de um jogo de palavras (…).
Mãe de todas as ciências, a Filosofia não é uma ciência no sentido estrito, como hoje a entendemos. Daí que nenhum dos sistemas filosóficos obtenha consenso universal. Assim, quem não toma atenção, ao olhar para a história da Filosofia, pode ter a sensação de um montão de ruínas. Mas o filósofo é isso mesmo: filósofo. Não é sábio, mas amante da sabedoria. K. Jaspers acentuou: a Filosofia “trai-se a si mesma quando degenera em dogmatismo, num saber fixado numa fórmula, definitivo, completo. Fazer Filosofia é estar a caminho; as perguntas em Filosofia são mais essenciais do que as respostas e cada resposta converte-se numa nova pergunta”. Montaigne escreveu que “filosofar é aprender a morrer”. Portanto, a Filosofia também é arte de viver. No espanto interrogador: foi o espanto que levou os primeiros pensadores às especulações filosóficas, escreveu Aristóteles, seguindo o mestre, Platão. Por isso, Kant preveniu que a Filosofia não se pode aprender nem ensinar, apenas se pode aprender a filosofar. Foi essa também a lição de Sócrates, o mártir da Filosofia. Com o seu método (…), ia derrubando o falso saber, assente na ignorância (…), e, obrigando a refletir, servia de parteiro à verdade. Acusado de ateu e corruptor da juventude, não temeu a morte. Pelo contrário, enfrentou-a com dignidade, avisando os seus concidadãos: “Obedecerei mais ao Deus do que a vós e enquanto viver não deixarei de filosofar e interrogar-vos:
ateniense, como é que te não envergonhas de só pensar em amontoar riquezas, em adquirir honras, e
desprezas os tesouros da verdade e da sabedoria e não trabalhas para tornar a tua alma tão boa quanto pode sê-lo?”.
Filosofar é um trabalho de reflexão, isto é, tem a ver com aquele movimento do espírito que volta a si mesmo, pondo em questão os conhecimentos que já tem, a caminho de um saber (…) consciente e crítico (…). Neste sentido, a vida verdadeiramente humana é filosófica, ao colocar-se no plano da inquirição racional livre e do constante pôr em questão. (…) O filósofo, indo à raiz das questões, não abandona o mundo: o que alimenta a sua reflexão são os problemas essenciais do mundo e do homem. (…)
O filósofo verdadeiro não cai no dogmatismo: é crítico, humilde e tolerante na busca sem fim da verdade. (…) A razão, percorrido todo o seu caminho sabe que acende a sua luz na noite do mistério.
Anselmo Borges, in Diário de Notícias, 14 de novembro 2009.
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Para que serve a filosofia?
Mas será verdade que a filosofia
não serve para nada? Claro que não. A filosofia, como a ciência, como a arte e
como a religião, serve para alargar a nossa compreensão do mundo. Em
particular, a filosofia oferece-nos uma compreensão da nossa estrutura conceptual
mais básica, oferece-nos uma compreensão daqueles instrumentos que estamos
habituados a usar para fazer ciência, para fazer religião e para fazer arte,
assim como na nossa vida quotidiana. A filosofia é difícil porque se ocupa de
problemas tão básicos que poucos instrumentos restam para nos ajudarem no nosso
estudo. Os matemáticos fazem maravilhas com os números; mas são incapazes de
determinar a natureza última dos próprios números - têm de se limitar a
usá-los, apesar de não saberem bem o que são. Todos nós sabemos pensar em
termos de deveres, no dia-a-dia; mas a filosofia procura saber qual é a
natureza desse pensamento ético que nos acompanha sem nós darmos muitas vezes
por isso.
Para compreendermos melhor as
dificuldades da filosofia é conveniente pensar numa metáfora. Imagine-se que
estou a fazer uma casa. Preciso de usar várias ferramentas, como a pá de
pedreiro, e vários materiais, como o cimento. Mas quando quero fazer uma pá de
pedreiro, ou quando quero fazer o cimento, terei de usar outras ferramentas
mais básicas. E depois terei de ter ferramentas para fazer as ferramentas com
que faço a pá de pedreiro ou o cimento. E por aí fora. Experimente ir para uma
ilha deserta fazer uma casa, sem levar nada da civilização. Será extremamente
difícil: não terá ferramentas à sua disposição para fazer nada, exceto as suas
mãos e a sua inteligência.
Num certo sentido, é esta a
dificuldade da filosofia: estamos a tentar estudar as próprias ferramentas que
usamos habitualmente para pensar. Por esse motivo, falta-nos ferramentas,
falta-nos apoio. Mas não estamos completamente desamparados; temos a argumentação
para nos ajudar. São os argumentos que fazem a diferença. São os argumentos que
nos permitem ir mais longe na compreensão da nossa estrutura cognitiva mais
profunda, que nos permitem compreender melhor os conceitos que usamos no
pensamento quotidiano, científico, artístico e religioso.
É agora claro que a filosofia serve
para alguma coisa. Serve para compreendermos melhor a estrutura conceptual que
usamos no dia-a-dia, na ciência, nas artes e na religião. Claro que a filosofia
não serve para distrair o «povo», como o futebol ou a tourada. Mas também a
matemática não serve para isso, nem a religião, nem a arte em geral. Para que
serve Os Maias, de Eça de Queirós? Para que serve a teoria da evolução de
Darwin? Para que nos serve saber que só na nossa galáxia há tantas estrelas
quantos os segundos que existem em três mil anos? Serve para sabermos mais
sobre nós próprios e sobre o universo em que habitamos. Tal como a filosofia.
Murcho, Desidério, A Natureza da Filosofia e o seu Ensino,
Plátano Editora, Lisboa, 2002, Pág. 65
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
A filosofia não é "adversarial".
Porque em filosofia argumentamos
uns com os outros sobre questões filosóficas, é natural pensar que a filosofia
é um processo "adversarial" [antagónico] como dois advogados (o de
acusação e o de defesa) que argumentam um contra o outro num tribunal. Contudo,
há duas razões pelas quais esta comparação dos filósofos com os advogados não é
boa. Em primeiro lugar, o objetivo de cada advogado é ganhar a causa do seu
cliente — quer o seu cliente esteja inocente quer não. Pelo contrário, o
objectivo de dois filósofos que se encontrem a argumentar um com o outro é
chegar à verdade — seja ela qual for e seja quem for que tenha razão. Como um
estudante afirmou, eloquentemente, o objetivo de cada advogado é ganhar a
causa, quer ele tenha a verdade quer não, ao passo que o objetivo de cada
filósofo é chegar à verdade, quer ele ganhe o argumento quer não. (Sendo os
filósofos seres humanos, nem sempre são assim tão imparciais, mas o ideal é
este.)
Em segundo lugar, num julgamento
há uma autoridade (o juiz ou o júri) que os advogados tentam persuadir, e que
em última análise determina se o acusado está ou não inocente. Em filosofia,
pelo contrário, não há qualquer juiz ou júri com autoridade para tornar uma
posição incorrecta e a outra correcta. Só existimos nós. Claro que alguns de
nós sabem mais do que outros sobre questões filosóficas, e o mais sábio é ficar
atento e aprender com quem sabe mais do que nós, mas quando chega o momento de
tomar decisões relativamente a um tema filosófico somos todos igualmente
responsáveis pelas nossas crenças e devemos por isso tomar, cada um de nós, as
suas próprias decisões.
Richard E. Creel Tradução de Desidério Murcho Thinking Philosophically, Blackwell, Oxford,
2001, p. 88
sábado, 21 de junho de 2014
Viver Juntos
«Para que pode servir a Filosofia
contemporânea?
Para viver juntos da melhor
maneira: no debate racional,
sem o qual não existe democracia,
na amizade, sem a
qual não existe felicidade,
finalmente na aceitação, sem a
qual não existe serenidade. Como
escreveu Marcel
Conche a propósito de Epicuro,
"trata-se de conquistar a
paz (pax, ataraxia) e a philia,
ou seja a amizade consigo
próprio e a amizade com o
outro." Eu acrescentaria: e
com a Cidade, o que é política, e
com o mundo - que
contém o eu, o outro, a Cidade…
-, o que é sabedoria.
Dir-se-á que isso não é novo… A
Filosofia nunca o é.
A sabedoria é-o sempre.»
André Comte-Sponville
terça-feira, 17 de junho de 2014
Trabalho dos Alunos: Criação de Blogs no âmbito "da dimensão estética - análise e compreensão da experiência estética”
O
reconhecimento da especificidade da experiência estética no triplo registo de
experiência da natureza, da criação artística e da
contemplação da obra de arte, constitui um momento
do conteúdo “a dimensão
estética - análise e compreensão
da experiência estética”, conteúdo este lecionado no presente ano letivo
e no âmbito da disciplina de Filosofia, no seu décimo ano de escolaridade.
Assim
sendo, os alunos que frequentaram a disciplina de Filosofia neste domínio
foram convidados a comunicar a sua experiência estética, uma vez colocados
perante obras de autores, portugueses e estrangeiros, dos mais variados setores
da atividade artística. Estimulados, que foram, para a
atribuição de um valor estético à criação
artística, os alunos estudaram o ponto de
vista de alguns autores, ao mesmo tempo que os enquadraram numa perspetiva
evolutiva do próprio conceito de arte.
A
reflexão sobre a arte e a criação
artística materializou-se, pois, numa
proposta de produção de juízos de teor
estético “em primeira mão”, alguns dos quais inseminados nas
escolhas de tendências artísticas posteriormente presentes em
trabalhos efetuados pelos alunos. Visitem-se alguns desses trabalhos.
http://filonet.webnode.pt/ - 10º3
Teorema II
"Princípios
práticos são proposições que contêm uma determinação geral da vontade, a qual
inclui em si várias regras práticas. São subjetivos, ou máximas, quando a condição é considerada pelo sujeito como válida
unicamente para a sua vontade; mas são objetivos, ou leis práticas, quando essa condição é reconhecida como objetiva,
isto é, válida para a vontade de todo o ser racional."
KANT,
I., Crítica da Razão Prática, Ed. 70, p. 29.
Teorema II
"Todos
os princípios práticos materiais são, enquanto tais, no seu conjunto, de uma só
e mesma espécie e classificam-se sob o princípio geral do amor de si ou da
felicidade pessoal.
O
prazer proveniente da representação da existência de uma coisa, na medida em
que ele deve ser um princípio determinante do desejo dessa coisa, funda-se na
capacidade de sentir do sujeito, porque depende da existência de um objeto; por
conseguinte, pertence ao sentido (sensibilidade [Gefühl]), e não ao entendimento,
que exprime uma relação da representação a um objeto (Objekt), segundo
conceitos, mas não ao sujeito, segundo sentimentos. Portanto, ele é prático só
enquanto a sensação de agrado, que o sujeito espera da realidade do objeto
(Gegenstand), determina a faculdade de desejar. Ora, a consciência que um ser
racional tem do agrado da vida, que acompanha ininterruptamente toda a sua
existência, é a felicidade (Glückseligkeit), e o princípio de fazer desta
felicidade o supremo princípio determinante é o princípio do amor de si. Por
conseguinte, todos os princípios materiais que colocam a causa determinante do
livre arbítrio no prazer ou desprazer, que se deve sentir a partir da realidade
de um objeto qualquer, são inteiramente da mesma espécie, na medida em que, no
seu conjunto, pertencem ao amor de si ou da felicidade pessoal."
KANT, I., Crítica
da Razão Prática, Ed. 70, pp. 32-33.
O meu coração bate por ti
"O amor é um sentimento ou uma emoção? A mesma palavra abrange as duas dimensões. A emoção de amor é intensa, violenta,
desencadeia sensações
físicas fortes, o
coração/músculo é solicitado, sentimo-lo vibrar,
estremecer, bater… (É
daí que vem a expressão “O meu coração bate por ti”?)
O sentimento de amor constrói-se dia após dia, alimenta-se com a emoção de amor mas não se reduz a ela. Sentimo-nos contentes,
felizes com o outro numa relação
que já não precisa da presença permanente. O laço
existe, estamos prontos para atravessar juntos as dificuldades da vida. A
felicidade inscreve-se na duração.
No casal, cumplicidade e solidariedade tornam-se mais importantes que erotismo
e sedução. As palpitações cardíacas dão lugar a vibrações mais subtis. Como descrevê-las? Alguns
evocam um fogo no peito, formigueiros, uma sensação de onda que sobe, invade e se apaga
docemente deixando-nos saciados e serenos. A emoção de amor está muito presente no início de uma relação, na descoberta do universo do outro e
no fogo da paixão.
Surge de novo quando há
um reencontro depois de uma separação,
quando alguém que nos é próximo
está em perigo… mas
também no momento de um ramo de flores, de uma atenção terna e de cada vez que se pronunciam
estas deliciosas palavras: “Amo-te”.
Tanto o amor materno como o paterno são também sentimentos que se escoram numa
relação tecida dia após dia.
O sentimento de amor instala-se
progressivamente; para durar precisa de ser pontuado por emoções ternas."
FILLIOZAT, I., A Inteligência do Coração. Rudimentos de Gramática
Emocional,
Editora Pergaminho, 2001,
pp.185-186.
A morte como o último exame da existência
"Será que a morte é temível?
Será que pode ser domesticada ou acolhida
quase como amiga? Encontramos pessoas que não têm medo da
morte, outras que, em sentido contrário, não
querem pensar nela por causa do terror que lhes inspira. E as perguntas a seu
respeito não faltam: porque é que a morte existe? O
que acontece na morte? Será que perderemos todo o contacto com as
pessoas que temos conhecido em vida? Porque é que a morte nos obriga a
abandonar tudo aquilo que fez a espessura dos nossos desejos e, mais
radicalmente, do nosso desejo de viver? Tive desde há
muito tempo a ideia, ou mais exatamente, a impressão
de que a morte é o último exame da vida, e mesmo o mais difícil.
Isso pressupõe que a morte é figurada como uma prova
que nos é imposta, a morte põe-nos à prova. É
estranho que o termo prova signifique ao mesmo tempo um exame, um periculum, uma espécie de perigo que não
se pode evitar nem contornar, mas também um ato ou um testemunho destinado a
apresentar provas."
Viver
a morte – sabedoria e tempo vivido,
Isabel Carmelo R. Renaud, in O fim
da vida, José Henrique Silveira de Brito (coord.), Publicações da Faculdade de Filosofia –
UCP, Braga, 2007, p. 145.
A dimensão simbólica do Homem
Digamos
(…) que não basta (…) a dimensão dos sinais, para “fazer” a nossa
humanidade. Aliás,
os semióticos mais
rigorosos, como por exemplo um dos pais fundadores, Thomas Sebeok, nunca
pretenderam com ela fazer discriminações
entre nós seres humanos e
o resto do universo animal ou vegetal, até fazer disso uma espécie de condição kantiana transcendental da experiência.
Sebeok tentou fundar uma grande e omnicompreensiva zoosemiótica. O Homem, portanto, não é um animal segnicum ou, pelo menos, esta é a condição não
suficiente para constituir a sua humanidade; será preciso defini-lo antes, como sustentava
Ernest Cassirer, animal symbolicum.»
GEVALÉRY, P., Discurso sobre a Estética,
Tomo II, Lisboa, 1989, p.54.
sábado, 7 de junho de 2014
As Gerações Futuras
Será que podemos ter a certeza que
as futuras gerações irão apreciar a natureza? Não se sentirão, talvez, mais
felizes sentadas em centros comerciais com ar condicionado, entretidas em jogos
de computador mais sofisticados do que alguém pode imaginar? É possível. Mas há
diversas razões para não atribuirmos demasiado peso a esta possibilidade. Em
primeiro lugar, a tendência tem-se manifestado na direcção oposta: o apreço
pela natureza nunca foi tão grande como actualmente, em especial nos países que
resolveram os problemas da pobreza e da fome e onde restam relativamente poucas
terras virgens. Esta é valorizada como algo de extrema beleza, como um repositório
de conhecimento científico ainda por conquistar, pelas oportunidades
recreativas que proporciona e porque muita gente fica feliz por saber que ainda
resta alguma coisa natural, que a civilização moderna deixou relativamente intata.
Se, como todos temos esperança, as futuras gerações forem capazes de satisfazer
as necessidades básicas da maioria das pessoas, é de esperar que, durante
séculos, também elas valorizarão a natureza pelas mesma razões que nós.
Os argumentos a favor da preservação
do meio natural baseados na sua beleza são por vezes tratados como se tivessem
pouco valor, por serem «meramente estéticos». Trata-se de um erro. Dedicamos um
grande esforço à conservação dos tesouros artísticos de civilizações humanas
anteriores. É difícil imaginar qualquer ganho económico que estivéssemos
dispostos a aceitar como compensação adequada para, por exemplo, a destruição
dos quadros do Louvre. Como deveremos comparar o valor estético da natureza com
as pinturas do Louvre? Neste caso talvez o juízo se torne inevitavelmente subjectivo;
de modo que relatarei a minha própria experiência. Contemplei quadros no Louvre
e em muitas das outras galerias da Europa e dos Estados Unidos. Penso que tenho
um sentido razoável de apreciação das belas-artes; contudo, não tive, em museu
algum, experiências que tivessem preenchido o meu sentido estético da forma
como me sinto realizado quando caminho por um cenário natural e faço uma pausa
para admirar do alto de um pico rochoso a paisagem de um vale coberto de
floresta ou me sento junto de uma torrente que serpenteia sobre seixos cobertos
de musgo no meio de altos fetos, que crescem à sombra do dossel da floresta.
Creio não ser o único a sentir tal exaltação; para muita gente, a natureza
constitui a fonte dos mais altos sentimentos de emoção estética, elevando-se a
uma intensidade quase espiritual.
Apesar de tudo é possível que este
apreço pela natureza não venha a ser partilhado pelas pessoas que viverem daqui
a um século ou dois. Mas, se a vida selvagem pode ser fonte de uma alegria e de
uma satisfação profundas, isso será uma grande perda. Até certo ponto, depende
de nós que as futuras gerações gostem ou não da natureza; trata-se, pelo menos,
de uma decisão sobre a qual podemos exercer alguma influência. Mediante a nossa
preservação da natureza, damos a oportunidade às futuras gerações e, por meio
de livros e filmes, criamos uma cultura que pode ser transmitida aos nossos
filhos e aos nossos netos. Se sentirmos que um passeio pela floresta, com os
sentidos sintonizados para a apreciação dessa experiência, é uma forma mais gratificante
de passar o dia do que entretermo-nos com jogos de computador, ou se sentirmos
que levar comida e abrigo na mochila para passarmos uma semana a andar de
bicicleta por um ambiente natural intacto contribuirá mais para desenvolver o
carácter do que ficar a ver televisão durante um período equivalente, nesse
caso devemos encorajar as futuras gerações a ter sentimentos de apreço pela
natureza; se acabarem por preferir jogos de computador, é sinal de que não
conseguimos esse intento.
Por fim, se mantivermos intactas as
extensões naturais que ainda existirem, as futuras gerações terão pelo menos a
escolha de largar os jogos de computador e sair para contemplar um mundo que
não foi criado por seres humanos. Se destruirmos o meio natural, essa opção
perde-se para sempre.
Peter Singer, Ética Prática, 1993,
trad. de Álvaro Augusto Fernandes, pp. 294-296.
domingo, 1 de junho de 2014
O Natal está a aproximar-se
O Natal está a aproximar-se. É um facto conhecido por todos, porém nem
todos vivem ou experienciam o natal, tal como eu o conheço. É isso que agora
irei partilhar…
O Natal é a altura do ano pela qual todos os elementos da nossa família
anseiam. É a oportunidade de em cada ano que passa, celebrarmos o que nos une e
nos é de mais precioso. Todos os anos acontece a mesma azáfama! Fazemos tudo
juntos. Todos, sem exceção, têm tarefas a executar e que acontecem como pura
magia. Não são estabelecidos quaisquer planos, ou estratégias de ação. Tudo
aparece feito. Os mais pequenos ocupam-se, antecipando as brincadeiras e o
entretenimento, os adultos preparam o manjar com o qual nos iremos deleitar e
os menos jovens, porém indispensáveis, recordam com saudade o tempo em que
foram meninos...
A cumplicidade que nos une dispensa a definição de timings e de papéis a desempenhar. É tudo muito simples e acontece com
igual simplicidade. Vive-se um enorme rebuliço, que a todos envolve e a todos
toca verdadeiramente. Não conseguiríamos sobreviver ao resto do ano sem esta
renovação de afetos e sem esta possibilidade de partilhar, aquilo que nos é
mais precioso: o amor que nos une e que nos faz sentir vivos e únicos. Este
eterno retorno, anual e intemporal é o nosso “nascimento do deus menino”, que
não se deixa materializar e que não significa Natal. É difícil, por aqui se vê,
apontar aspetos negativos ou argumentar contra este Natal... Talvez o aspeto
negativo a apontar seja a sua ausência como tal e a forma como tantas vezes é
reduzido a nada… Há troca de prendas e não há troca de afetos. Há troca de emails em que nada se transmite e nada
se faz sentir. Reenviam-se palavras feitas por outrem, que não singularizam a
importância de cada pessoa, e que matam o Natal.
Texto do aluno Luís Fernando de Faria
Ferreira, 12.º1 ( EBS DR. Luís Maurílio da Silva Dantas), distinguido com uma Menção Honrosa no concurso “Uma Aventura Literária 2014”, edições
Caminho
domingo, 18 de maio de 2014
O racismo não tem fundamento científico
«Os seres humanos
acreditaram muito tempo que o Sol girava em torno de uma Terra imóvel. O senso
comum pretendia também que se classificasse a humanidade segundo as semelhanças
físicas como a cor da pele, a forma da cabeça, o cabelo, o tamanho...
Durante dois séculos,
os antropólogos, alguns entre os mais eminentes da sua época, tentaram confortar
estas evidências, forjando o conceito de raça. Os seus trabalhos serviram ao
longo da história moderna para justificar as piores atrocidades, todas as
barbáries.
As descobertas da
Biologia moderna, em particular as da Genética, destruíram totalmente aquelas
teorias potencialmente criminosas.
Como diz o Prémio
Nobel François Jacob: "Para a nossa espécie, o conceito de raça não é um
conceito operacional". Mediante a análise dos sistemas sanguíneos, das
defesas imunitárias, a exploração do genoma, a Genética teve acesso às nossas
caraterísticas moleculares escondidas e forneceu-nos revelações espetaculares:
à exceção dos verdadeiros gémeos, cada um dos cinco biliões de seres humanos do
Planeta tem um património genético diferente. Cada indivíduo é único. Paradoxalmente
a Genética mostra-nos também o extraordinário parentesco entre todas as
populações. Estas têm todas aproximadamente os mesmos genes, havendo todavia
frequências variáveis de acordo com os laços mais ou menos recentes que
estabeleceram entre si.
Os avanços científicos
permitem mesmo traçar a história da humanidade. As conclusões de apaixonadas
investigações de várias equipas de biólogos, confirmadas pelos trabalhos de
Paleontologia, revolucionaram as ideias sobre a evolução do homem moderno. Afirmam
a origem única de todas as populações atuais. O Homo sapiens teria nascido há
100 000 anos aproximadamente, algures entre a África Oriental e o Médio
Oriente. As populações ter-se--iam diferenciado em seguida de modo contínuo, de
acordo com as suas migrações. E as semelhanças físicas? Elas resultam de uma
seleção relativamente rápida onde intervém de facto a semelhança dos
ecossistemas originais. É esta seleção que explica, por exemplo − escreve André
Langaney −, as convergências entre Papuas e Africanos-Equatoriais, entre
Tibetanos, Ameríndios dos Altos Andes e Esquimós, etnias geneticamente
afastadas.
Se a noção de raça não
tem fundamento, o racismo continua a existir. Há mudanças e relações sociais
que o alimentam. Não obstante, a tarefa mais nobre da ciência é a de combater
as ideias feitas e recebidas, os preconceitos, isto é, ir para lá das
aparências.»
Editorial da
revista Sciences et Avenir,
n.º 540,
fevereiro de 1992.
quarta-feira, 14 de maio de 2014
A necessidade de Deus e de imortalidade
«O homem moderno pensou que,
quando se tivesse visto livre de Deus, se teria libertado a si mesmo de tudo o
que o reprimia e asfixiava. Em vez disso, descobriu que, ao matar Deus, também
se matou a si mesmo.
Pois se Deus não existe, então a
vida do homem torna-se absurda.
Se Deus não existe, então tanto o
homem como o universo estão inevitavelmente condenados à morte. O homem, como
todos os organismos biológicos, tem de morrer. Sem qualquer esperança de
imortalidade, a vida do homem conduz apenas à sepultura. A sua vida é apenas
uma fagulha na escuridão infinita, uma fagulha que aparece, treme luz e morre
para sempre. Comparada com o tempo infinito, o tempo de vida humana é apenas um
momento infinitesimal; e mesmo assim esta é toda a vida que alguma vez conheceremos.
Portanto, teremos todos de estar cara a cara com aquilo a que o teólogo Paul
Tillich chamou “a ameaça da não-existência”. Pois embora eu saiba agora que
existo, que estou vivo, também sei que algum dia já não existirei, que já não
irei ser, que irei morrer. Este pensamento é desconcertante e ameaçador: pensar
que a pessoa a que chamo “eu mesmo” deixará de existir, que não existirei mais!
Lembro-me bastante bem da
primeira vez que o meu pai me disse que um dia eu iria morrer. De alguma forma,
enquanto criança, o pensamento nunca me tinha ocorrido. Quando ele me disse,
assolou-me uma tristeza insuportável. E embora ele tentasse várias vezes
assegurar-me de que ainda faltava muito tempo isso não parecia interessar. O
facto inegável era que mais cedo ou mais tarde eu morreria e não existiria
mais, e esse pensamento devastou-me. Com o tempo, aprendi, como todos nós, a
aceitar simplesmente o facto. Todos nós aprendemos a viver com o inevitável.
Mas a perceção de criança continua a ser verdadeira. Como o existencialista
francês, Jean-Paul Sartre disse, várias horas ou vários anos não faz diferença
nenhuma, uma vez que se tenha perdido a eternidade.
Quer isso ocorra mais cedo ou
mais tarde, a perspetiva da morte e a ameaça da não-existência é um choque
terrível. Mas encontrei uma vez um estudante que não sentia esta ameaça. Ele
disse que tinha sido criado numa quinta e estava habituado a ver os animais
nascerem e morrerem. Para ele, a morte era simplesmente uma coisa natural − uma
parte da vida, por assim dizer. Surpreendeu-me quão diferentes eram as nossas
duas perspetivas da morte e achei difícil compreender por que razão ele não
sentia a ameaça da não-existência. Penso que encontrei a resposta anos mais
tarde ao ler Sartre. Sartre observou que a morte não é ameaçadora conquanto a
encaremos como a morte de outros, do ponto de vista de uma terceira pessoa, por
assim dizer. É apenas quando a interiorizamos e a olhamos de uma perspetiva de
primeira pessoa − “a minha morte: Eu vou morrer” − que a ameaça da não existência
se torna real. Como Sartre chamou a atenção, muitas pessoas a meio da vida
nunca assumem esta perspetiva de primeira pessoa; podemos até olhar para a
nossa própria morte de um ponto de vista de terceira pessoa, como se fosse a
morte de outra pessoa ou mesmo de um animal, como fazia o meu amigo. Mas o
verdadeiro significado existencial de a minha morte pode apenas ser apreciado
de uma perspetiva de primeira pessoa, à medida que compreendo que vou morrer e
deixar de existir para sempre. A minha vida é apenas uma passagem momentânea do
esquecimento para o esquecimento.
O universo enfrenta igualmente a
morte. Os cientistas dizem-nos que o universo está em expansão e que todas as
coisas nele se afastam cada vez mais umas das outras. À medida que isso acontece,
o universo torna-se cada vez mais e mais frio e a sua energia esgota-se. Por
fim, todas as estrelas se extinguirão e toda a matéria colapsará em estrelas
mortas e em buracos negros. Não existirá qualquer luz; não existirá qualquer
calor; não existirá qualquer vida; apenas os cadáveres de estrelas e galáxias
mortas, expandindo-se para sempre na escuridão infinita e os recessos frios do
espaço − um universo em ruínas. O universo inteiro dirige-se irreversivelmente
para o seu túmulo. Por conseguinte, não é apenas a vida de cada pessoa
individual que está perdida; é a totalidade da raça humana que está perdida. O
universo precipita-se para a sua extinção inevitável − a morte está escrita em
toda a sua estrutura. Não há fuga. Não há esperança. Se Deus não existe, então
o homem e o universo estão perdidos. Como prisioneiros condenados à morte,
esperamos a nossa execução inevitável. Não há Deus e não há imortalidade. Qual
é a consequência disto? Segue-se que a própria vida é absurda. Segue-se que a
vida que temos não tem propósito, valor ou significado últimos.
Craig, William Lane. «The Absurdity of Life Without
God» in Klemke, E. D. The Meaning of Life, pp. 40-42. (adaptado)
domingo, 11 de maio de 2014
Os animais também têm direitos
«Talvez chegue o dia em que a restante
criação animal venha a adquirir os direitos de que só puderam ser privados pela
mão da tirania. Os Franceses já descobriram que o negro da pele não é razão
para um ser humano ser abandonado sem remédio aos caprichos de um torcionário.
É possível que um dia se reconheça
que o número de pernas, a pilosidade da pele ou terminação do sacrum são razões
igualmente insuficientes para abandonar um ser sensível ao mesmo destino. Que
outra coisa poderia traçar uma linha insuperável? Seria a faculdade da razão
ou, talvez, a faculdade do discurso? Mas um cavalo adulto é, para lá de toda a comparação,
um animal mais racional, assim como mais sociável que um recém-nascido de um
dia, de uma semana ou mesmo de um mês. Mas suponhamos que não era assim; de que
serviria? A questão não está em saber se eles podem pensar ou falar, mas sim se
podem sofrer.»
Jeremy Bentham, Princípios da Moral e da Legislação
O cientista e o artista
Um amigo meu que é artista assume
às vezes atitudes de que discordo. Por exemplo, pega numa flor e diz: - Vê como
é bela! – e eu concordo. Mas depois acrescenta: - Eu, que sou artista, consigo
apreciar a beleza de uma flor, enquanto tu, que és cientista, desmancha-la
toda, e isso é triste. – Isto dá-me a ideia de que ele não regula bem.
Em
primeiro lugar, a beleza que ele vê é acessível a todos – inclusive a mim,
segundo creio. Embora talvez não possua o seu requinte estético, julgo ser
capaz de apreciar a beleza de uma flor. Mas, simultaneamente, vejo na flor
muito mais do que ele: consigo imaginar as células no seu interior, que têm
igualmente a sua beleza, já que esta não existe só na escala do centímetro; encontramo-la também em porções muito
menores.
Há
complicadas ações das células e outros processos. O facto de se ter verificado
uma evolução nas cores das flores, de forma a atraírem os insetos para as
polinizar, é interessante, porque significa que os insetos conseguem ver as
cores. Daí somos levados a perguntar se o sentido estético existe também nas
formas de vida inferiores. O conhecimento científico, junto ao entusiasmo, ao
mistério e ao respeito por uma flor, torna possível toda a espécie de perguntas
interessantes.
Richard Freynman (1998), Nem sempre a Brincar, Sr. Freynman, Lisboa, Gradiva, p.11.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Uma Crítica a Popper.
Quando um cientista aceita uma lei, está a recomendar às outras
pessoas que confiem nela — muitas vezes, que confiem nela em contextos
práticos. Popper só consegue apresentar a sua perspectiva peculiar sobre a
indução porque arranca completamente a ciência do contexto em que ela surge
efectivamente: o contexto de pessoas que tentam mudar e controlar o mundo. As
ideias não são apenas ideias; são
guias para a acção. As nossas noções de «conhecimento», «probabilidade», «certeza»,
etc., estão ligadas entre si e são usadas frequentemente em contextos nos quais
a acção está em questão: poderei ter confiança numa certa ideia? Deverei
confiar nela à experiência, com uma certa cautela? Será necessário avaliá-la
melhor?
Se afirmações como
«esta lei está muito corroborada» ou «esta lei é aceite cientificamente»
significassem apenas «esta lei passou testes rigorosos» — e se não se sugerisse
de forma alguma que uma lei que passou testes rigorosos provavelmente passará
novos testes, como os envolvidos nas suas aplicações ou nas tentativas de a
aplicar —, então Popper teria razão, mas nesse caso a ciência seria uma
actividade sem a menor importância. Não teria importância prática porque os
cientistas nunca nos diriam que uma lei ou teoria é segura para efeitos
práticos. E não teria importância para a nossa compreensão do mundo, já que,
segundo a perspectiva de Popper, os cientistas nunca nos dizem que uma teoria é
verdadeira ou sequer provável. Saber que certas «conjecturas» (segundo Popper,
todas as leis científicas são «conjecturas provisórias») ainda não foram
refutadas é o mesmo que nada compreender.
Dado que a aplicação
de leis científicas implica a antecipação de sucessos futuros, Popper não tem
razão quando defende que a indução é desnecessária. Mesmo que os cientistas não
antecipem indutivamente o futuro (o que, obviamente, é falso), as pessoas que
aplicam leis e teorias científicas fazem isso. E «não faça induções»
dificilmente seria um conselho razoável a dar-lhes.
Hilary Putnam, A “Corroboração” de Teorias», 1978,
trad. de Pedro Galvão, p.122
A Profundidade das Teorias Científicas.
Sugiro que as nossas leis ou as nossas teorias devem ser universais, isto é, devem fazer
afirmações sobre o mundo ¾
sobre todas as regiões espaciotemporais do mundo. Sugiro, além disso, que as
nossas teorias fazem afirmações sobre propriedades estruturais ou relacionais
do mundo, e que as propriedades descritas numa teoria explicativa devem ser, em
algum sentido, mais profundas do que as da teoria a explicar. Julgo que a
expressão «mais profundas» resiste a qualquer tentativa de análise lógica
exaustiva, mas ainda assim é um guia para as nossas intuições.
No entanto,
parece haver uma espécie de condição suficiente
para a profundidade, ou para graus de profundidade, que pode ser logicamente
analisada. Vou tentar explicar isto com a ajuda de um exemplo da história da
ciência.
É do
conhecimento geral que a dinâmica de Newton realizou uma unificação da física
terrestre de Galileu e da física celeste de Kepler. Diz-se frequentemente que a
dinâmica de Newton pode ser induzida a partir das leis de Galileu e de Kepler,
e chegou-se mesmo a dizer que pode ser estritamente deduzida a partir delas.
Mas isto não é verdade; de um ponto de vista lógico, a teoria de Newton em
rigor contradiz tanto a teoria de Galileu como a de Kepler (embora, obviamente,
estas últimas teorias possam ser obtidas como aproximações logo que tenhamos à
nossa disposição a teoria de Newton). Por esta razão, é impossível derivar a
teoria de Newton a partir da de Galileu, da de Kepler ou de ambas, seja por
dedução ou por indução, pois nem uma inferência dedutiva, nem uma inferência
indutiva, pode avançar de premissas consistentes para uma conclusão que
contradiz formalmente as premissas de que partimos.
É
importante notar que das teorias de Galileu ou de Kepler não obtemos o menor
indício sobre como estas teriam de ser ajustadas ¾ que falsas premissas teriam de ser abandonadas ou que
condições teriam que ser estipuladas ¾ se tentássemos avançar a partir delas para outras
teorias com uma validade mais geral, como a de Newton. Só depois de estarmos na posse da teoria de Newton podemos descobrir
se, e em que sentido, as teorias anteriores podem ser suas aproximações.
Podemos exprimir este facto resumidamente dizendo que, embora do ponto de vista
da teoria de Newton as de Galileu e de Kepler sejam aproximações excelentes a
certos resultados newtonianos específicos, não podemos dizer que a teoria de
Newton seja, do ponto de vista das outras duas teorias, uma aproximação aos
seus resultados. Tudo isto mostra que a lógica, seja ela dedutiva ou indutiva,
nunca pode realizar o passo que vai destas teorias à dinâmica de Newton. Só a
imaginação pode realizar esse passo. Logo que ele tenha sido realizado, podemos
dizer que os resultados de Galileu e de Kepler corroboram a nova teoria.
Aqui, no
entanto, não estou tão interessado na impossibilidade da indução como no problema da profundidade e, no que diz
respeito a este problema, podemos de facto aprender algo a partir do nosso
exemplo. A teoria de Newton unifica a de Galileu e a de Kepler mas, longe de
ser uma mera conjunção dessas duas teorias, [...] corrige-as ao mesmo tempo que as explica. A tarefa explicativa
original era a dedução dos resultados anteriores, mas esta tarefa é abandonada,
porque não se deduzem os resultados anteriores, deduzindo-se algo melhor no seu
lugar: novos resultados que, sob as condições específicas dos velhos
resultados, aproximam-se muito deles numericamente ao mesmo tempo que os
corrigem.
Sugiro que,
sempre que nas ciências empíricas uma nova teoria com um nível de
universalidade mais elevado explica com sucesso uma teoria anterior corrigindo-a, temos um indício seguro de
que a nova teoria penetrou mais fundo do que as teorias anteriores.
Karl Popper, Conhecimento Objectivo, pp. 110-111,
trad. de Pedro Galvão.
terça-feira, 6 de maio de 2014
Duas aplicações do imperativo categórico de Kant
Uma pessoa vê-se
pressionada pela necessidade de pedir dinheiro emprestado. Ela sabe muito bem
que não será capaz de pagar a dívida, mas também vê que nada lhe será
emprestado a menos que prometa solenemente pagar a dívida num determinado prazo.
Sente-se tentado a prometer; mas ainda lhe sobra suficiente consciência para se
perguntar se não será contrário ao dever
deitar mão de tal recurso?
Suponha-se que ela se decidia a
fazê-lo; a máxima da sua ação seria a seguinte: quando creio estar a precisar
de dinheiro, vou pedi-lo emprestado, prometendo pagá-lo, ainda que saiba que
isso nunca acontecerá. Ora, este princípio de amor-próprio, ou do nosso próprio
benefício, talvez seja consistente com todo o meu bem-estar futuro, mas a questão
agora é saber se é correto. Consequentemente, transformo a imposição de amor-próprio
numa lei universal, e formulo a pergunta como se segue: como seriam as coisas se a minha máxima se tornasse uma lei universal? Ora,
vejo então imediatamente que nunca poderia ser uma lei universal da natureza,
em harmonia consigo mesma, tendo antes necessariamente de se contradizer. Pois
a universalidade de uma lei segundo a qual todas as pessoas que se vejam em
necessidades poderiam prometer fosse o que fosse com a intenção de não cumprir,
tornaria impossível a promessa e a finalidade que podemos ter em vista ao
prometer, dado que ninguém acreditaria que lhe estavam a prometer algo, antes
rindo perante tal elocução, por ser mentira.
[...] Outra pessoa prospera ao mesmo
tempo que vê outros que lutam com grandes dificuldades (e que ela poderia
perfeitamente ajudar), e pensa: que tenho eu e ver com isso? Que todos sejam
tão felizes quanto os céus o quiserem, ou quanto o consigam por si mesmos, nada
deles irei tirar, nem sequer os invejarei; apenas não me apetece contribuir com
seja o que for para o seu bem-estar, ou para o assistir quando estiver com necessidades.
Ora, certamente que se esta maneira de pensar se tornasse uma lei universal da
natureza, o género humano poderia muito bem subsistir, e certamente que melhor
do que quando toda a gente fala de compaixão e benevolência, desenvolvendo até
o zelo para executar tais ações ocasionalmente, mas também trapaceia sempre que
pode, vende o direito dos seres humanos, ou o infringe de outro modo.
Mas mesmo que seja possível que uma lei
universal da natureza poderia muito bem subsistir segundo essa máxima, é ainda
assim impossível querer que tal princípio se aplique em todo o lado como uma
lei da natureza. Pois um querer que assim fizesse entraria em conflito consigo
mesmo, pois muitos casos poderão ainda surgir em que precisamos do amor e da
compaixão dos outros e em que, devido a tal lei da natureza oriunda da sua própria
vontade, essa pessoa impedir-se-ia a si mesma de ter qualquer esperança na
assistência que deseja para si mesma.
KANT,Immanuel,
Fundamentação da Metafísica dos Costumes,
1785, trad. Desidério Murcho, pp. Ak IV: 422-423
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Frustração e Apatia
"Um aspeto desconcertante do comportamento humano é a tendência para que situações semelhantes levem diferentes indivíduos a comportamento diametralmente opostos. Embora a agressão ativa seja uma reação comum à frustração, outra reação é o seu oposto- apatia, indiferença, afastamento, inatividade, desatenção. Não sabemos porque é que uma pessoa reage com agressão e outra com apatia à mesma situação frustradora, mas parece provável que a aprendizagem seja um fator importante; é possível aprender as reações à frustração da mesma forma que outros hábitos. A criança que bate encolerizada quando fica frutrada e descobre então que a sua necessidade é satisfeita (seja através dos seus esforços, seja porque um dos seus pais se apressa a acalmá-la), da próxima vez que os seus motivos sejam contrariados recorrerá provavelmente ao mesmo tipo de comportamento. A criança cujas explosões agressivas nunca obtêm êxito, que verifica que é impotente para satisfazer as suas necessidades através do seu comportamento, pode recorrer à apatia e ao afastamento perante uma situação frustradora."
Hilgard, E. e Atkinson, R., Introdução à Psicologia, Nacional, 1980, p.511
Diário de Anne Frank
"Nem sempre me tratam da mesma maneira. Um dia pertenço à classe dos adultos e posso saber tudo, e no dia seguinte a Anne não passa de um ser inexperinete que julga ter aprendido alguma coisa nos livros mas que, na realidade, não sabe coisa de jeito. Ora eu não sou um bebé nem uma boneca para os divertir. Tenho os meus ideais, o meu modo de pensar e os meus planos, embora ainda me falte a capacidade de traduzir tudo isto em palavras. Ai! tantas, tantas dúvidas que se me levantam quando estou só, à noite, ou mesmo durante o dia quando estou encerrada com toda esta gente que já não posso ver à minha frente e de que estou farta até não poder mais. Eles nada compreendem dos meus problemas. Assim, volto sempre ao meu diário. É ele o meu princípio e o meu fim. A ti, Kitty, nunca te falta a paciência e prometo-te que hei-de aguentar. Hei-de vencer a minha dor e consguir o meu caminho. Só gostava de ter, de vez em quando, um pouco de sucesso, de ser estimulada e encorajada, por alguém que tivesse amor!
Não me condenes! Por favor, compreende que, às vezes, não posso mais!
Frank, A., O Diário de Anne Frank, Livros do Brasil, s/d, pp.69-71
O Senso Comum
O
senso comum julga-se dono de verdades eternas. Não tendo o refinamento da
ciência, guardada as suas “verdades” com zelo e recusa-se a aceitar as teorias
científicas que o contradigam. Assim é que o heliocentrismo teve de esperar
cerca de dois séculos para se integrar na cultura geral, enquanto a teoria da
evolução ainda está muito longe de ser consensualmente aceite.
O
senso comum acredita que diferentes pessoas, vendo o mesmo fenómeno, veem
sempre a mesma coisa. Isso é um puro equívoco; há figuras de cubos, pirâmides,
escadas, rostos, etc. que examinadas, até pela mesma pessoa, podem mostrar-se,
depois de alguns segundos., diferentes da forma como se mostravam a princípio.
Quando duas pessoas olham uma dessas figuras, pode acontecer que num mesmo momento
uma esteja a ver algo bem diferente do que a outra vê. A expressão “eu vi com
os meus próprios olhos” não oferece garantia alguma de que seja verdade o que
se diz.
Newton Freire Maia, A ciência por Dentro, Vozes, 1991, p.21.
domingo, 20 de abril de 2014
A cidade
"Observamos que toda a cidade é uma certa
forma de comunidade e que toda a comunidade é constituída em vista de algum
bem. É que, em todas as suas ações, todos os homens visam o que pensam ser o
bem. É, então, manifesto que, na medida em que todas as comunidades visam algum
bem, a comunidade mais elevada de todas e que engloba todas as outras visará o
maior de todos os bens. Esta comunidade é chamada ‘cidade’, aquela que toma a
forma de uma comunidade de cidadãos.
(…)
A cidade, enfim, é uma comunidade completa,
formada a partir de várias aldeias e que, por assim dizer, atinge o máximo de
autossuficiência. Formada a princípio para preservar a vida, a cidade subsiste
para assegurar a vida boa. É por isso que toda a cidade existe por natureza, se
as comunidades primeiras assim o foram. A cidade é o fim destas, e a natureza
de uma coisa é o seu fim, já que, sempre que o processo de génese de uma coisa
se encontre completo, é a isso que chamamos a sua natureza, seja de um homem,
de um cavalo ou de uma casa. Além disso, a causa final, o fim de uma coisa, é o
seu melhor bem, e a autossuficiência é, simultaneamente, um fim e o melhor dos
bens."
Aristóteles,
Política, Coleção Veja, 1998, 1252a – 1253a.
Eugenia: o nome e a coisa
"(…) O termo eugenia
foi cunhado por Francis Galton. Contudo, sem o nome, a defesa da eugenia é um
elemento recorrente na história. A leitura de clássicos como A República, de
Platão, ou, mais tarde, A cidade do Sol, de Tomás Campanela, permite recortar
duas linhas de força: a eliminação de seres humanos com malformações genéticas,
a chamada eugenia negativa, e uma política de promoção de casamentos entre os
melhores (eugenia positiva). Um novo impulso ao eugenismo é dado pela biologia
molecular, que, como sublinha, Diego Garcia, surge no “interior de um programa
eugénico”.
Se olharmos para o último século de
história, verificamos que o chamado “eugenismo científico” teve refracções
políticas, alicerçando um eugenismo centralizado, em regimes democráticos (por
exemplo, os EUA ou os países escandinavos) ou totalitários (paradigmaticamente,
a Alemanha nacional-socialista). Assentava em políticas de esterilização e de
proibição de casamentos e, no caso do nazismo, na pura e simples eliminação
(programas da chamada – impropriamente – “morte piedosa”). Em termos
históricos, verifica-se que, entre nós, não sendo desconhecido esse debate, e
tendo até Egas Moniz proposto, de uma forma limitada, a esterilização, a matriz
cultural funcionou (…) como uma barreira.
Se, tradicionalmente, tínhamos um eugenismo
de Estado, centralizado ou autoritário, assistimos agora a um processo de
transição para um eugenismo individual ou liberal, de um eugenismo
privilegiando a espécie para um eugenismo centrado em escolhas individuais e
entregue, fundamentalmente, ao mercado. A novíssima revolução genética
disponibilizou quer ao nível do diagnóstico, quer da intervenção, uma panóplia
de possibilidades que levanta novos problemas, tocando na “natureza humana”,
entendida como dotação genética. (…)"
João
Carlos Loureiro, in Jürgen Habermas, O
Futuro da Natureza Humana. A Caminho de uma Eugenia Liberal?, Almedina,
2006, pp. 10-12.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Maturidade Moral
Em
sociedades moralmente sãs, o comum dos mortais segue a sua voz íntima, a maior
parte das vezes inconscientemente, não rouba nem mata, porque, num mundo de
pessoas responsáveis, a sua agulha magnética moral funciona normalmente. Em
épocas de revolução e de crise, pelo contrário […], a consciência moral
torna-se insegura e incerta.
[…]
A fuga à responsabilidade é o mais claro indício de falência de maturidade
moral. Só pela sua aceitação nos libertaremos, só pela participação responsável
na vida do Estado nos tornaremos cidadãos; só pela aceitação da responsabilidade
pelas nossas ações nos tornaremos pessoas. Mesmo os grupos e as nações só
alcançam o estádio de maturidade e se tornam, em sentido próprio, civilizados
quando satisfazem estas exigências. Porque é isto essencial? Pelo facto de, sem
fundamento moral, ordem alguma de grupos humanos ser possível, desde a família
ao Estado e à comunidade dos povos. Não só os fundamentos últimos do direito
são de espécie moral, mas também uma ordem social não se pode manter sem normas
éticas.
FRITZ Heinemann, A Filosofia do Século XX
(adaptado)
segunda-feira, 31 de março de 2014
A consciência nasce na Sociedade
"É difícil o momento em que nasce a consciência moral. O seu despertar é o da razão e a razão não é insuflada do exterior para a criança num determinado instante. Traz a razão em si desde o nascimento, mas como uma aptidão privada ao princípio das condições do seu exercício. A
A sociedade é o lugar onde nasce a consciência. Não a cria mas ajuda-a a constituir-se. O adulto é respeitado e temido pela criança e as suas ordens são, para ela, o próprio dever. Com Piaget, podemos distinguir dois tipos de relações sociais: "as relações sociais de coação, que consistem em impor do exterior ao indivíduo um sistema de regras de conteúdo obrigatório, e as relações sociais de cooperação, cuja essência consiste em fazer surgir no interior dos espíritos a consciência das normas ideais que comandam todas as regras". As primeiras fundam-se num respeito unilateral, as segundas num respeito mútuo. O autor opõe à ação dos pais a exercida sobre a criança pelo grupo dos seus coetâneos, ação de cooperação mais apta a suscitar a reciprocidade e a autonomia. Seja como for, a tarefa de educação consistirá em conduzir a criança da coação suportada ao dever cumprido e amado, do respeito cedo ao respeito mútuo, das ordens impostas à cooperação. E isto não é impossível mesmo no seio da família.
Meio social, exemplos, tradições, mas também grau de inteligência e nível de moralidade, constituem as causas contingentes que moldam uma consciência. Nenhum escândalo há, pois, em ver as diferentes conceções que, segundo os lugares e os tempos, os homens têm do dever. O que permanece invariável é a ideia de que há um dever; o que varia é o conteúdo do dever, mas quem é dotado de razão tem necessariamente o sentimento de uma ordem que se impõe à sua conduta."
Gabriel Madinier, La conscience morale
domingo, 16 de março de 2014
O envelhecimento
(...) o envelhecimento ocorre dentro de um contexto que envolve outras pessoas- amigos, colegas de trabalho, vizinhos e membros da família. Esta é a razão pela qual interdependência e solidariedade entre gerações (uma via de mão dupla, com indivíduos jovens e velhos, onde se dá e se recebe) são princípios relevantes para o envelhecimento ativo. A criança de ontem é o adulto de hoje e o avô ou avó de amanhã. A qualidade de vida que as pessoas terão quando avós depende não só dos riscos e oportunidades que experimentam durante a vida, mas também da maneira como as gerações posteriores oferecerão ajuda e apoio.
Envelhecimento activo. Um Projeto de Política de Saúde, OMS, Abril, 2002
sábado, 15 de março de 2014
Viver sem Filosofar...
"Viver sem filosofar é
como ter os olhos sem nunca procurar abri-los e o prazer de ver todas as coisas
que a nossa vista alcança não se compara à satisfação que confere o conhecimento
do que se encontra pela Filosofia; e, enfim, que este estudo é mais necessário
para orientar as ações e conduzir-nos na vida do que o uso dos olhos nos guiar
nos passos. Os animais irracionais que apenas possuem o corpo para conservar;
ocupam-se, continuamente, em procurar alimentá-lo; mas os homens, cuja parte
principal é o espírito, deveriam primeiramente usar o tempo na procura da
sabedoria, o seu verdadeiro alimento. Estou convencido também que muitos há que
não deixariam de o fazer, se tivessem esperança de o conseguir e soubessem que
disso são capazes. Não existe pessoa, por menos elevada que seja que, embora
permanecendo fortemente ligada aos objetos dos sentidos, não se afaste algumas
vezes deles para desejar um outro bem maior; ainda que ignore, com frequência, em que consiste. Aqueles que a fortuna
mais favorece, que desfrutam plenamente de saúde, honras e riquezas, não estão
mais isentos de tal desejo que os outros; pelo contrário, penso que são estes
que suspiram com mais força por um outro bem, mais elevado do que todos aqueles
que já possuem. Ora este bem mais elevado, considerado pela razão sem a
intromissão da crença, não é outra coisa senão o conhecimento da verdade
através das suas primeiras causas, isto é, sabedoria, da qual a Filosofia é o
estudo"
Descartes, Princípios da Filosofia, Lisboa,
Guimarães Ed., 1984, pp.31 e 32
Onde está Deus?
“Onde
está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes
que não cometi, gozar, ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma,
espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino ao pé de
uma lareira qualquer… Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem
sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de
não sei que futuro… (…)
Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão
abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade,
tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado na Fantasia. De um
pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá a ideia
de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e
faço-me uma ideia Dele a quem possa amar… Mas depois penso que o não conheço,
que talvez ele não seja assim, que talvez não seja nunca esse o pai da minha
alma”
Bernardo Soares,
Livro do Desassossego, vol.II Ática,
1982, pp. 14-15
segunda-feira, 10 de março de 2014
Obrigações Morais e Legais
- Quem
quiser tornar-se um jogador de xadrez melhor deve estudar os jogos de
Garry Kasparov;
- Quem
quiser ir para a faculdade de direito deve inscrever-se nos exames de
acesso.
Grande
parte da nossa conduta é governada por tais “deves”. O padrão é: temos um
determinado desejo (ser melhores jogadores de xadrez, ir para a faculdade de
direito); reconhecemos que um certo percurso nos ajudará a obter o que
desejamos (estudar os jogos de Kasparov, fazer a inscrição para os exames de
acesso); e, por isso concluímos que devemos seguir o plano indicado.
Kant
chamou a isto “imperativos hipotéticos” porque nos dizem o que fazer desde que
tenhamos os desejos relevantes. (…) Uma vez que a força de obrigatoriedade do
“deves” depende de termos ou não o desejo relevante, podemos escapar à sua
força renunciando simplesmente ao desejo. (…)
Em
contraste, as obrigações morais não dependem de desejos específicos que
possamos ter. A forma de uma obrigação moral não é “Se queremos isto ou aquilo,
então devemos fazer isto ou aquilo”. Os requisitos morais são, ao invés, categóricos: têm a forma “Deves fazer
isto e aquilo, sem mais”. A
regra moral não é, por exemplo, que devemos ajudar as pessoas se nos importamos
com elas ou se temos outro objetivo que possamos alcançar ao auxiliá-las. A
regra é, pelo contrário, que devemos ser prestáveis para as pessoas
independentemente dos nossos desejos e necessidades particulares. É por isso
que, ao contrário dos “deves” hipotéticos, não se pode evitar as exigências
morais dizendo, simplesmente, “mas isso não me interessa”.
RACHELS, J., Elementos
de Filosofia Moral, Gradiva, 2004, pp. 175-176.
As nossas ilusões
A nossa geração quis dar o
melhor às crianças e aos jovens. Sonhámos grandes sonhos para eles. Procurámos
dar-lhes os melhores brinquedos, roupas, passeios e escolas. Não queríamos que
eles andassem à chuva, se magoassem nas ruas, se ferissem com os brinquedos
caseiros e vivessem as dificuldades pelas quais nós passámos.
Colocámos
uma televisão na sala. Alguns pais, com mais recursos, colocaram uma televisão
e um computador no quarto de cada filho. Outros preencheram o tempo dos seus
filhos com atividades, matriculando-os em cursos de inglês, informática,
música.
Tiveram
uma excelente intenção, só não sabiam que as crianças precisavam de ter
infância, necessitavam de inventar, correr riscos, dececionar-se, ter tempo
para brincar e encantar-se com a vida. Não imaginavam o quanto a criatividade,
a felicidade, a ousadia e a segurança do adulto dependiam das matrizes da
memória e da energia emocional da criança. Não compreenderam que a televisão,
os brinquedos manufaturados, a internet e o excesso de atividades bloqueavam a
infância dos seus filhos.
Criámos um mundo artificial para as
crianças e pagámos caro por isso. Produzimos sérias consequências no território
das suas emoções, no anfiteatro dos seus pensamentos e no solo das suas
memórias.
CURY, A., Pais Brilhantes, Professores Fascinantes, Editora Pergaminho Lda., 2004, pp.
11-12.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
O Determinante da Amizade
“ Os amigos cuja afeição é baseada no
interesse não amam um ao outro, por si mesmos, e sim por causa de algum
proveito que obtêm um do outro. O mesmo raciocínio se aplica àqueles que se
amam por causa do prazer; não é por seu caráter que gostamos das pessoas
espirituosas; mas porque as achamos agradáveis. Logo, as pessoas que amam as
outras por interesses amam por causa do que é bom para si mesmas, e aqueles que
amam por causa do prazer amam por causa do que lhes é agradável, e não porque a
outra pessoa é a pessoa que ama, mas porque ela é útil ou agradável”
ARISTÓTRELES, Ética
a Nicomaco, 4ª ed, Trad. De Mário Kury, Ed. Universidade de Brasilia, 2001
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Argumentação e Procura da Verdade
“A democracia baseia-se no pressuposto de
que não há homens que nascem para mandar nem existem outros que nascem para
obedecer, mas que todos nascemos com a capacidade de pensar e, portanto, com o
direito político de intervir na gestão da comunidade da qual fazemos parte.
Mas, para que os cidadãos possam ser politicamente iguais, é imprescindível que
em contrapartida nem todas as suas opiniões sejam: deve haver algum meio de
hierarquizar as ideias na sociedade não hierárquica, potenciando as mais
adequadas e afastando as erróneas ou prejudiciais. Numa palavra, procurando a
verdade. É exatamente esta a missão da razão, cujo uso todos partilhamos (
antigamente as verdades sociais eram estabelecidas pelos deuses, pela tradição,
pelos soberanos absolutos, etc.). Na sociedade democrática, as opiniões de cada
um são fortalezas ou castelos onde se encerram como forma de auto afirmação pessoal:
“ter” uma opinião não é ter uma propriedade que ninguém tem direito a tirar-nos.
Oferecemos a nossa opinião aos outros para que a debatam e, por seu lado, a
aceitem ou a refutem e não apenas para que saibam “ onde estamos e quem somos”.
E, desde logo, nem todas as opiniões são igualmente válidas: valem mais as que
tenham melhores argumentos a seu favor, as que melhor resistem à prova de fogo
do debate com as objeções que lhes são colocadas.
Se não queremos que sejam os deuses ou
certos homens privilegiados que usurpem a autoridade social ( quer dizer, que
sejam quem decide qual é a verdade que convém à humanidade) não resta outra
alternativa que submetermo-nos à autoridade da razão como via para a verdade.
Mas a razão não está situada como
árbitro semidivino acima de nós para conciliar as nossas disputas, mas funciona
dentro de nós e entre nós. Não só temos que ser capazes de exercer a razão nas
nossas argumentações mas também – e isto é muito importante e talvez ainda mais
difícil – devemos desenvolver a capacidade de ser convencidos pelas melhores
razões, venham elas de quem vierem. Não respeita a autoridade democrática da
razão quem só sabe manejá-la a favor das suas teses mas considera humilhante
ser persuadido pelas razões opostas. Não basta ser racional, quer dizer,
aplicar argumentos racionais a coisas ou factos, mas é não menos imprescindível
ser razoável, ou seja, acolher nos nossos raciocínios o peso argumental de
outras subjetividades que também se exprimem racionalmente. A partir da
perspetiva racionalista, a verdade procurada é sempre resultado, não ponto de
partida: essa procura inclui a conversação entre iguais, a polémica, o debate,
a controvérsia. Não como afirmação da sua subjetividade mas como via para
atingir uma verdade objetiva através das múltiplas subjetividades. Se sabemos
argumentar mas não sabemos deixar-nos persuadir, far-nos-á falta um chefe, um
deus, ou um Grande Perito que finalmente decida o que é verdade para todos”
Fernando
Savater, As Perguntas da Vida
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