Um amigo meu que é artista assume
às vezes atitudes de que discordo. Por exemplo, pega numa flor e diz: - Vê como
é bela! – e eu concordo. Mas depois acrescenta: - Eu, que sou artista, consigo
apreciar a beleza de uma flor, enquanto tu, que és cientista, desmancha-la
toda, e isso é triste. – Isto dá-me a ideia de que ele não regula bem.
Em
primeiro lugar, a beleza que ele vê é acessível a todos – inclusive a mim,
segundo creio. Embora talvez não possua o seu requinte estético, julgo ser
capaz de apreciar a beleza de uma flor. Mas, simultaneamente, vejo na flor
muito mais do que ele: consigo imaginar as células no seu interior, que têm
igualmente a sua beleza, já que esta não existe só na escala do centímetro; encontramo-la também em porções muito
menores.
Há
complicadas ações das células e outros processos. O facto de se ter verificado
uma evolução nas cores das flores, de forma a atraírem os insetos para as
polinizar, é interessante, porque significa que os insetos conseguem ver as
cores. Daí somos levados a perguntar se o sentido estético existe também nas
formas de vida inferiores. O conhecimento científico, junto ao entusiasmo, ao
mistério e ao respeito por uma flor, torna possível toda a espécie de perguntas
interessantes.
Richard Freynman (1998), Nem sempre a Brincar, Sr. Freynman, Lisboa, Gradiva, p.11.

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