domingo, 18 de maio de 2014

O racismo não tem fundamento científico



«Os seres humanos acreditaram muito tempo que o Sol girava em torno de uma Terra imóvel. O senso comum pretendia também que se classificasse a humanidade segundo as semelhanças físicas como a cor da pele, a forma da cabeça, o cabelo, o tamanho...
Durante dois séculos, os antropólogos, alguns entre os mais eminentes da sua época, tentaram confortar estas evidências, forjando o conceito de raça. Os seus trabalhos serviram ao longo da história moderna para justificar as piores atrocidades, todas as barbáries.
As descobertas da Biologia moderna, em particular as da Genética, destruíram totalmente aquelas teorias potencialmente criminosas.
Como diz o Prémio Nobel François Jacob: "Para a nossa espécie, o conceito de raça não é um conceito operacional". Mediante a análise dos sistemas sanguíneos, das defesas imunitárias, a exploração do genoma, a Genética teve acesso às nossas caraterísticas moleculares escondidas e forneceu-nos revelações espetaculares: à exceção dos verdadeiros gémeos, cada um dos cinco biliões de seres humanos do Planeta tem um património genético diferente. Cada indivíduo é único. Paradoxalmente a Genética mostra-nos também o extraordinário parentesco entre todas as populações. Estas têm todas aproximadamente os mesmos genes, havendo todavia frequências variáveis de acordo com os laços mais ou menos recentes que estabeleceram entre si.
Os avanços científicos permitem mesmo traçar a história da humanidade. As conclusões de apaixonadas investigações de várias equipas de biólogos, confirmadas pelos trabalhos de Paleontologia, revolucionaram as ideias sobre a evolução do homem moderno. Afirmam a origem única de todas as populações atuais. O Homo sapiens teria nascido há 100 000 anos aproximadamente, algures entre a África Oriental e o Médio Oriente. As populações ter-se--iam diferenciado em seguida de modo contínuo, de acordo com as suas migrações. E as semelhanças físicas? Elas resultam de uma seleção relativamente rápida onde intervém de facto a semelhança dos ecossistemas originais. É esta seleção que explica, por exemplo − escreve André Langaney −, as convergências entre Papuas e Africanos-Equatoriais, entre Tibetanos, Ameríndios dos Altos Andes e Esquimós, etnias geneticamente afastadas.
Se a noção de raça não tem fundamento, o racismo continua a existir. Há mudanças e relações sociais que o alimentam. Não obstante, a tarefa mais nobre da ciência é a de combater as ideias feitas e recebidas, os preconceitos, isto é, ir para lá das aparências.»
Editorial da revista Sciences et Avenir,
n.º 540, fevereiro de 1992.


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