terça-feira, 6 de maio de 2014

Duas aplicações do imperativo categórico de Kant

Uma pessoa vê-se pressionada pela necessidade de pedir dinheiro emprestado. Ela sabe muito bem que não será capaz de pagar a dívida, mas também vê que nada lhe será emprestado a menos que prometa solenemente pagar a dívida num determinado prazo. Sente-se tentado a prometer; mas ainda lhe sobra suficiente consciência para se perguntar se não será  contrário ao dever deitar mão de tal recurso?
Suponha-se que ela se decidia a fazê-lo; a máxima da sua ação seria a seguinte: quando creio estar a precisar de dinheiro, vou pedi-lo emprestado, prometendo pagá-lo, ainda que saiba que isso nunca acontecerá. Ora, este princípio de amor-próprio, ou do nosso próprio benefício, talvez seja consistente com todo o meu bem-estar futuro, mas a questão agora é saber se é correto. Consequentemente, transformo a imposição de amor-próprio numa lei universal, e formulo a pergunta como se segue: como seriam as coisas se a minha máxima se tornasse uma lei universal? Ora, vejo então imediatamente que nunca poderia ser uma lei universal da natureza, em harmonia consigo mesma, tendo antes necessariamente de se contradizer. Pois a universalidade de uma lei segundo a qual todas as pessoas que se vejam em necessidades poderiam prometer fosse o que fosse com a intenção de não cumprir, tornaria impossível a promessa e a finalidade que podemos ter em vista ao prometer, dado que ninguém acreditaria que lhe estavam a prometer algo, antes rindo perante tal elocução, por ser mentira.
[...] Outra pessoa prospera ao mesmo tempo que vê outros que lutam com grandes dificuldades (e que ela poderia perfeitamente ajudar), e pensa: que tenho eu e ver com isso? Que todos sejam tão felizes quanto os céus o quiserem, ou quanto o consigam por si mesmos, nada deles irei tirar, nem sequer os invejarei; apenas não me apetece contribuir com seja o que for para o seu bem-estar, ou para o assistir quando estiver com necessidades. Ora, certamente que se esta maneira de pensar se tornasse uma lei universal da natureza, o género humano poderia muito bem subsistir, e certamente que melhor do que quando toda a gente fala de compaixão e benevolência, desenvolvendo até o zelo para executar tais ações ocasionalmente, mas também trapaceia sempre que pode, vende o direito dos seres humanos, ou o infringe de outro modo.
 Mas mesmo que seja possível que uma lei universal da natureza poderia muito bem subsistir segundo essa máxima, é ainda assim impossível querer que tal princípio se aplique em todo o lado como uma lei da natureza. Pois um querer que assim fizesse entraria em conflito consigo mesmo, pois muitos casos poderão ainda surgir em que precisamos do amor e da compaixão dos outros e em que, devido a tal lei da natureza oriunda da sua própria vontade, essa pessoa impedir-se-ia a si mesma de ter qualquer esperança na assistência que deseja para si mesma.

    KANT,Immanuel, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, 1785, trad. Desidério Murcho, pp. Ak IV: 422-423

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