Uma pessoa vê-se
pressionada pela necessidade de pedir dinheiro emprestado. Ela sabe muito bem
que não será capaz de pagar a dívida, mas também vê que nada lhe será
emprestado a menos que prometa solenemente pagar a dívida num determinado prazo.
Sente-se tentado a prometer; mas ainda lhe sobra suficiente consciência para se
perguntar se não será contrário ao dever
deitar mão de tal recurso?
Suponha-se que ela se decidia a
fazê-lo; a máxima da sua ação seria a seguinte: quando creio estar a precisar
de dinheiro, vou pedi-lo emprestado, prometendo pagá-lo, ainda que saiba que
isso nunca acontecerá. Ora, este princípio de amor-próprio, ou do nosso próprio
benefício, talvez seja consistente com todo o meu bem-estar futuro, mas a questão
agora é saber se é correto. Consequentemente, transformo a imposição de amor-próprio
numa lei universal, e formulo a pergunta como se segue: como seriam as coisas se a minha máxima se tornasse uma lei universal? Ora,
vejo então imediatamente que nunca poderia ser uma lei universal da natureza,
em harmonia consigo mesma, tendo antes necessariamente de se contradizer. Pois
a universalidade de uma lei segundo a qual todas as pessoas que se vejam em
necessidades poderiam prometer fosse o que fosse com a intenção de não cumprir,
tornaria impossível a promessa e a finalidade que podemos ter em vista ao
prometer, dado que ninguém acreditaria que lhe estavam a prometer algo, antes
rindo perante tal elocução, por ser mentira.
[...] Outra pessoa prospera ao mesmo
tempo que vê outros que lutam com grandes dificuldades (e que ela poderia
perfeitamente ajudar), e pensa: que tenho eu e ver com isso? Que todos sejam
tão felizes quanto os céus o quiserem, ou quanto o consigam por si mesmos, nada
deles irei tirar, nem sequer os invejarei; apenas não me apetece contribuir com
seja o que for para o seu bem-estar, ou para o assistir quando estiver com necessidades.
Ora, certamente que se esta maneira de pensar se tornasse uma lei universal da
natureza, o género humano poderia muito bem subsistir, e certamente que melhor
do que quando toda a gente fala de compaixão e benevolência, desenvolvendo até
o zelo para executar tais ações ocasionalmente, mas também trapaceia sempre que
pode, vende o direito dos seres humanos, ou o infringe de outro modo.
Mas mesmo que seja possível que uma lei
universal da natureza poderia muito bem subsistir segundo essa máxima, é ainda
assim impossível querer que tal princípio se aplique em todo o lado como uma
lei da natureza. Pois um querer que assim fizesse entraria em conflito consigo
mesmo, pois muitos casos poderão ainda surgir em que precisamos do amor e da
compaixão dos outros e em que, devido a tal lei da natureza oriunda da sua própria
vontade, essa pessoa impedir-se-ia a si mesma de ter qualquer esperança na
assistência que deseja para si mesma.
KANT,Immanuel,
Fundamentação da Metafísica dos Costumes,
1785, trad. Desidério Murcho, pp. Ak IV: 422-423

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