quarta-feira, 7 de maio de 2014

Uma Crítica a Popper.

Quando um cientista aceita uma lei, está a recomendar às outras pessoas que confiem nela — muitas vezes, que confiem nela em contextos práticos. Popper só consegue apresentar a sua perspectiva peculiar sobre a indução porque arranca completamente a ciência do contexto em que ela surge efectivamente: o contexto de pessoas que tentam mudar e controlar o mundo. As ideias não são apenas ideias; são guias para a acção. As nossas noções de «conhecimento», «probabilidade», «certeza», etc., estão ligadas entre si e são usadas frequentemente em contextos nos quais a acção está em questão: poderei ter confiança numa certa ideia? Deverei confiar nela à experiência, com uma certa cautela? Será necessário avaliá-la melhor?
      Se afirmações como «esta lei está muito corroborada» ou «esta lei é aceite cientificamente» significassem apenas «esta lei passou testes rigorosos» — e se não se sugerisse de forma alguma que uma lei que passou testes rigorosos provavelmente passará novos testes, como os envolvidos nas suas aplicações ou nas tentativas de a aplicar —, então Popper teria razão, mas nesse caso a ciência seria uma actividade sem a menor importância. Não teria importância prática porque os cientistas nunca nos diriam que uma lei ou teoria é segura para efeitos práticos. E não teria importância para a nossa compreensão do mundo, já que, segundo a perspectiva de Popper, os cientistas nunca nos dizem que uma teoria é verdadeira ou sequer provável. Saber que certas «conjecturas» (segundo Popper, todas as leis científicas são «conjecturas provisórias») ainda não foram refutadas é o mesmo que nada compreender.
      Dado que a aplicação de leis científicas implica a antecipação de sucessos futuros, Popper não tem razão quando defende que a indução é desnecessária. Mesmo que os cientistas não antecipem indutivamente o futuro (o que, obviamente, é falso), as pessoas que aplicam leis e teorias científicas fazem isso. E «não faça induções» dificilmente seria um conselho razoável a dar-lhes.
                                                                               Hilary Putnam, A “Corroboração” de Teorias», 1978, trad. de Pedro Galvão, p.122


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