Quando um cientista aceita uma lei, está a recomendar às outras
pessoas que confiem nela — muitas vezes, que confiem nela em contextos
práticos. Popper só consegue apresentar a sua perspectiva peculiar sobre a
indução porque arranca completamente a ciência do contexto em que ela surge
efectivamente: o contexto de pessoas que tentam mudar e controlar o mundo. As
ideias não são apenas ideias; são
guias para a acção. As nossas noções de «conhecimento», «probabilidade», «certeza»,
etc., estão ligadas entre si e são usadas frequentemente em contextos nos quais
a acção está em questão: poderei ter confiança numa certa ideia? Deverei
confiar nela à experiência, com uma certa cautela? Será necessário avaliá-la
melhor?
Se afirmações como
«esta lei está muito corroborada» ou «esta lei é aceite cientificamente»
significassem apenas «esta lei passou testes rigorosos» — e se não se sugerisse
de forma alguma que uma lei que passou testes rigorosos provavelmente passará
novos testes, como os envolvidos nas suas aplicações ou nas tentativas de a
aplicar —, então Popper teria razão, mas nesse caso a ciência seria uma
actividade sem a menor importância. Não teria importância prática porque os
cientistas nunca nos diriam que uma lei ou teoria é segura para efeitos
práticos. E não teria importância para a nossa compreensão do mundo, já que,
segundo a perspectiva de Popper, os cientistas nunca nos dizem que uma teoria é
verdadeira ou sequer provável. Saber que certas «conjecturas» (segundo Popper,
todas as leis científicas são «conjecturas provisórias») ainda não foram
refutadas é o mesmo que nada compreender.
Dado que a aplicação
de leis científicas implica a antecipação de sucessos futuros, Popper não tem
razão quando defende que a indução é desnecessária. Mesmo que os cientistas não
antecipem indutivamente o futuro (o que, obviamente, é falso), as pessoas que
aplicam leis e teorias científicas fazem isso. E «não faça induções»
dificilmente seria um conselho razoável a dar-lhes.
Hilary Putnam, A “Corroboração” de Teorias», 1978,
trad. de Pedro Galvão, p.122
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