"(…) O termo eugenia
foi cunhado por Francis Galton. Contudo, sem o nome, a defesa da eugenia é um
elemento recorrente na história. A leitura de clássicos como A República, de
Platão, ou, mais tarde, A cidade do Sol, de Tomás Campanela, permite recortar
duas linhas de força: a eliminação de seres humanos com malformações genéticas,
a chamada eugenia negativa, e uma política de promoção de casamentos entre os
melhores (eugenia positiva). Um novo impulso ao eugenismo é dado pela biologia
molecular, que, como sublinha, Diego Garcia, surge no “interior de um programa
eugénico”.
Se olharmos para o último século de
história, verificamos que o chamado “eugenismo científico” teve refracções
políticas, alicerçando um eugenismo centralizado, em regimes democráticos (por
exemplo, os EUA ou os países escandinavos) ou totalitários (paradigmaticamente,
a Alemanha nacional-socialista). Assentava em políticas de esterilização e de
proibição de casamentos e, no caso do nazismo, na pura e simples eliminação
(programas da chamada – impropriamente – “morte piedosa”). Em termos
históricos, verifica-se que, entre nós, não sendo desconhecido esse debate, e
tendo até Egas Moniz proposto, de uma forma limitada, a esterilização, a matriz
cultural funcionou (…) como uma barreira.
Se, tradicionalmente, tínhamos um eugenismo
de Estado, centralizado ou autoritário, assistimos agora a um processo de
transição para um eugenismo individual ou liberal, de um eugenismo
privilegiando a espécie para um eugenismo centrado em escolhas individuais e
entregue, fundamentalmente, ao mercado. A novíssima revolução genética
disponibilizou quer ao nível do diagnóstico, quer da intervenção, uma panóplia
de possibilidades que levanta novos problemas, tocando na “natureza humana”,
entendida como dotação genética. (…)"
João
Carlos Loureiro, in Jürgen Habermas, O
Futuro da Natureza Humana. A Caminho de uma Eugenia Liberal?, Almedina,
2006, pp. 10-12.
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