domingo, 20 de abril de 2014

Eugenia: o nome e a coisa


"(…) O termo eugenia foi cunhado por Francis Galton. Contudo, sem o nome, a defesa da eugenia é um elemento recorrente na história. A leitura de clássicos como A República, de Platão, ou, mais tarde, A cidade do Sol, de Tomás Campanela, permite recortar duas linhas de força: a eliminação de seres humanos com malformações genéticas, a chamada eugenia negativa, e uma política de promoção de casamentos entre os melhores (eugenia positiva). Um novo impulso ao eugenismo é dado pela biologia molecular, que, como sublinha, Diego Garcia, surge no “interior de um programa eugénico”.
Se olharmos para o último século de história, verificamos que o chamado “eugenismo científico” teve refracções políticas, alicerçando um eugenismo centralizado, em regimes democráticos (por exemplo, os EUA ou os países escandinavos) ou totalitários (paradigmaticamente, a Alemanha nacional-socialista). Assentava em políticas de esterilização e de proibição de casamentos e, no caso do nazismo, na pura e simples eliminação (programas da chamada – impropriamente – “morte piedosa”). Em termos históricos, verifica-se que, entre nós, não sendo desconhecido esse debate, e tendo até Egas Moniz proposto, de uma forma limitada, a esterilização, a matriz cultural funcionou (…) como uma barreira.
Se, tradicionalmente, tínhamos um eugenismo de Estado, centralizado ou autoritário, assistimos agora a um processo de transição para um eugenismo individual ou liberal, de um eugenismo privilegiando a espécie para um eugenismo centrado em escolhas individuais e entregue, fundamentalmente, ao mercado. A novíssima revolução genética disponibilizou quer ao nível do diagnóstico, quer da intervenção, uma panóplia de possibilidades que levanta novos problemas, tocando na “natureza humana”, entendida como dotação genética. (…)"

João Carlos Loureiro, in Jürgen Habermas, O Futuro da Natureza Humana. A Caminho de uma Eugenia Liberal?, Almedina, 2006, pp. 10-12.

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