“Onde
está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes
que não cometi, gozar, ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma,
espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino ao pé de
uma lareira qualquer… Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem
sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de
não sei que futuro… (…)
Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão
abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade,
tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado na Fantasia. De um
pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá a ideia
de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e
faço-me uma ideia Dele a quem possa amar… Mas depois penso que o não conheço,
que talvez ele não seja assim, que talvez não seja nunca esse o pai da minha
alma”
Bernardo Soares,
Livro do Desassossego, vol.II Ática,
1982, pp. 14-15

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