"Viver sem filosofar é
como ter os olhos sem nunca procurar abri-los e o prazer de ver todas as coisas
que a nossa vista alcança não se compara à satisfação que confere o conhecimento
do que se encontra pela Filosofia; e, enfim, que este estudo é mais necessário
para orientar as ações e conduzir-nos na vida do que o uso dos olhos nos guiar
nos passos. Os animais irracionais que apenas possuem o corpo para conservar;
ocupam-se, continuamente, em procurar alimentá-lo; mas os homens, cuja parte
principal é o espírito, deveriam primeiramente usar o tempo na procura da
sabedoria, o seu verdadeiro alimento. Estou convencido também que muitos há que
não deixariam de o fazer, se tivessem esperança de o conseguir e soubessem que
disso são capazes. Não existe pessoa, por menos elevada que seja que, embora
permanecendo fortemente ligada aos objetos dos sentidos, não se afaste algumas
vezes deles para desejar um outro bem maior; ainda que ignore, com frequência, em que consiste. Aqueles que a fortuna
mais favorece, que desfrutam plenamente de saúde, honras e riquezas, não estão
mais isentos de tal desejo que os outros; pelo contrário, penso que são estes
que suspiram com mais força por um outro bem, mais elevado do que todos aqueles
que já possuem. Ora este bem mais elevado, considerado pela razão sem a
intromissão da crença, não é outra coisa senão o conhecimento da verdade
através das suas primeiras causas, isto é, sabedoria, da qual a Filosofia é o
estudo"
Descartes, Princípios da Filosofia, Lisboa,
Guimarães Ed., 1984, pp.31 e 32

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