- Quem
quiser tornar-se um jogador de xadrez melhor deve estudar os jogos de
Garry Kasparov;
- Quem
quiser ir para a faculdade de direito deve inscrever-se nos exames de
acesso.
Grande
parte da nossa conduta é governada por tais “deves”. O padrão é: temos um
determinado desejo (ser melhores jogadores de xadrez, ir para a faculdade de
direito); reconhecemos que um certo percurso nos ajudará a obter o que
desejamos (estudar os jogos de Kasparov, fazer a inscrição para os exames de
acesso); e, por isso concluímos que devemos seguir o plano indicado.
Kant
chamou a isto “imperativos hipotéticos” porque nos dizem o que fazer desde que
tenhamos os desejos relevantes. (…) Uma vez que a força de obrigatoriedade do
“deves” depende de termos ou não o desejo relevante, podemos escapar à sua
força renunciando simplesmente ao desejo. (…)
Em
contraste, as obrigações morais não dependem de desejos específicos que
possamos ter. A forma de uma obrigação moral não é “Se queremos isto ou aquilo,
então devemos fazer isto ou aquilo”. Os requisitos morais são, ao invés, categóricos: têm a forma “Deves fazer
isto e aquilo, sem mais”. A
regra moral não é, por exemplo, que devemos ajudar as pessoas se nos importamos
com elas ou se temos outro objetivo que possamos alcançar ao auxiliá-las. A
regra é, pelo contrário, que devemos ser prestáveis para as pessoas
independentemente dos nossos desejos e necessidades particulares. É por isso
que, ao contrário dos “deves” hipotéticos, não se pode evitar as exigências
morais dizendo, simplesmente, “mas isso não me interessa”.
RACHELS, J., Elementos
de Filosofia Moral, Gradiva, 2004, pp. 175-176.
Sem comentários:
Enviar um comentário