quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Argumentação e Procura da Verdade


     “A democracia baseia-se no pressuposto de que não há homens que nascem para mandar nem existem outros que nascem para obedecer, mas que todos nascemos com a capacidade de pensar e, portanto, com o direito político de intervir na gestão da comunidade da qual fazemos parte. Mas, para que os cidadãos possam ser politicamente iguais, é imprescindível que em contrapartida nem todas as suas opiniões sejam: deve haver algum meio de hierarquizar as ideias na sociedade não hierárquica, potenciando as mais adequadas e afastando as erróneas ou prejudiciais. Numa palavra, procurando a verdade. É exatamente esta a missão da razão, cujo uso todos partilhamos ( antigamente as verdades sociais eram estabelecidas pelos deuses, pela tradição, pelos soberanos absolutos, etc.). Na sociedade democrática, as opiniões de cada um são fortalezas ou castelos onde se encerram como forma de auto afirmação pessoal: “ter” uma opinião não é ter uma propriedade que ninguém tem direito a tirar-nos. Oferecemos a nossa opinião aos outros para que a debatam e, por seu lado, a aceitem ou a refutem e não apenas para que saibam “ onde estamos e quem somos”. E, desde logo, nem todas as opiniões são igualmente válidas: valem mais as que tenham melhores argumentos a seu favor, as que melhor resistem à prova de fogo do debate com as objeções que lhes são colocadas.
     Se não queremos que sejam os deuses ou certos homens privilegiados que usurpem a autoridade social ( quer dizer, que sejam quem decide qual é a verdade que convém à humanidade) não resta outra alternativa que submetermo-nos à autoridade da razão como via para a verdade. Mas a razão não está  situada como árbitro semidivino acima de nós para conciliar as nossas disputas, mas funciona dentro de nós e entre nós. Não só temos que ser capazes de exercer a razão nas nossas argumentações mas também – e isto é muito importante e talvez ainda mais difícil – devemos desenvolver a capacidade de ser convencidos pelas melhores razões, venham elas de quem vierem. Não respeita a autoridade democrática da razão quem só sabe manejá-la a favor das suas teses mas considera humilhante ser persuadido pelas razões opostas. Não basta ser racional, quer dizer, aplicar argumentos racionais a coisas ou factos, mas é não menos imprescindível ser razoável, ou seja, acolher nos nossos raciocínios o peso argumental de outras subjetividades que também se exprimem racionalmente. A partir da perspetiva racionalista, a verdade procurada é sempre resultado, não ponto de partida: essa procura inclui a conversação entre iguais, a polémica, o debate, a controvérsia. Não como afirmação da sua subjetividade mas como via para atingir uma verdade objetiva através das múltiplas subjetividades. Se sabemos argumentar mas não sabemos deixar-nos persuadir, far-nos-á falta um chefe, um deus, ou um Grande Perito que finalmente decida o que é verdade para todos”

                                                                       Fernando Savater, As Perguntas da Vida

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