quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A Cartola




“…para nos tornarmos bons filósofos precisamos unicamente
da capacidade de nos surpreendermos…”


"Sofia experimentava uma sensação que nunca experimentara antes: na escola e por toda a parte as pessoas ocupavam-se apenas com coisas fúteis. Mas havia questões importantes e difíceis, cuja resposta era mais importante do que as disciplinas normais da escola.
Teria alguém respostas para estes problemas? De qualquer modo, Sofia achava mais importante refletir sobre eles do que aprender de cor os verbos irregulares.
Quando, após a última aula, a campainha tocou, ela saiu tão depressa do pátio da escola que Jorunn teve de correr para a alcançar. Passado um pouco, Jorunn perguntou:
- Que tal se jogássemos às cartas hoje à tarde?
Sofia encolheu os ombros.
- Acho que já não estou muito interessada em jogos de cartas.
Jorunn pareceu cair das nuvens.
- Não? Jogamos então badminton?
Sofia olhou fixamente para o asfalto – e depois para a amiga.
- Acho que já nem o badminton me interessa.
- Está bem!
Sofia sentiu na voz de Jorunn um tom de azedume.
- Podes então dizer-me o que é que passou a ser mais importante?
Sofia abanou a cabeça.
- Isso… é um segredo.
- Já percebi. Estás apaixonada.
Caminharam juntas algum tempo em silêncio. Quando chegaram ao campo desportivo, jorunn disse:
- Eu vou pelo campo.
“Pelo campo”. Esse era o caminho mais curto para Jorunn, mas ela só o fazia quando tinha de chegar cedo a casa, porque esperava visitas ou porque tinha consulta no dentista.
Sofia teve pena de ter magoado Jorunn. Mas o que deveria ter respondido? Que estava subitamente muito ocupada em saber quem era e de onde vinha o mundo e que já não tinha tempo para jogar badminton? Será que a sua amiga teria entendido?
Por que motivo era tão difícil tratar das questões mais importantes e simultaneamente mais naturais? (…)"

In Jostein Gaarder, O Mundo de Sofia, Editorial Presença, págs. 16-17 (adaptado).

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