“Há quem pense que, sem Deus, a vida não
teria sentido. Isto não implica mas sugere que Deus poderia dar sentido à nossa
vida. Mas como poderia Deus fazê-lo? Eis três hipóteses: Deus poderia
estabelecer o que tem ou não valor: poderia atribuir-nos um propósito ou missão
a cumprir; poderia dar-nos a vida eterna.
Começando pelo último caso,
é difícil defender que uma vida que não tem sentido, se for finita, o ganha
sendo infinita. Afinal, quando nos entregamos a uma atividade destituída de
sentido, dificilmente lhe daremos sentido prolongando-a. Assim, a ideia não
pode ser que a vida finita não tem sentido, mas antes que o tem, sendo,
contudo, interrompido com a morte – ou talvez, mais radicalmente, anulado.
Neste caso, tudo o que Deus faria seria impedir que o sentido que a vida já tem
fosse interrompido ou anulado. Se for esta a ideia, então é literalmente falso
que sem Deus a vida não tem sentido; o que seria verdadeiro, neste caso, é que
sem Deus o sentido da vida seria interrompido ou anulado.
No segundo caso, em que Deus
nos atribuiria um propósito ou missão, é difícil compreender como poderia isso
dar sentido à nossa vida. Não poderia ser apenas, certamente, por ser uma
missão atribuída por Deus, pois podemos sem dificuldade pensar em missões que
Deus nos atribuiria e que seriam destituídas de sentido – como contar os grãos
de areia do deserto do Sara, por exemplo, ou tentar insistentemente voar até à
Lua a bater os braços. Claro que Deus não nos atribuiria missões tão tolas, mas
isto mostra que não é por Deus nos atribuir uma missão que essa missão pode dar
sentido à nossa vida. Se uma missão dá sentido à nossa vida, é por ser a missão
que é e não por ter sido atribuída por Deus. Na melhor das hipóteses, uma
missão que já tenha sentido pode ganhar mais importância se nos for atribuída
por Deus. Daqui conclui-se que a inexistência de Deus é compatível com o
sentido da vida, desde que o género de propósito ou missão que Deus nos poderia
atribuir continue a existir.
O primeiro caso, em que Deus
daria sentido à nossa vida estabelecendo o que tem valor, já foi brevemente
discutido no capítulo anterior. Já vimos que há razões para crer que Deus não
pode estabelecer o que tem e o que não tem valor; quando muito, pode ajudar-nos
a descobrir o que tem e o que não tem valor.
Se Deus não é uma fonte
promissora do sentido da vida, o que poderá ser? Ou será que a vida não tem
sentido?”
MURCHO, D., Filosofia
em Direto, Relógio de Água Editores, Lisboa, 2011, págs. 54 – 55.

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