quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Sentido

Há quem pense que, sem Deus, a vida não teria sentido. Isto não implica mas sugere que Deus poderia dar sentido à nossa vida. Mas como poderia Deus fazê-lo? Eis três hipóteses: Deus poderia estabelecer o que tem ou não valor: poderia atribuir-nos um propósito ou missão a cumprir; poderia dar-nos a vida eterna.
Começando pelo último caso, é difícil defender que uma vida que não tem sentido, se for finita, o ganha sendo infinita. Afinal, quando nos entregamos a uma atividade destituída de sentido, dificilmente lhe daremos sentido prolongando-a. Assim, a ideia não pode ser que a vida finita não tem sentido, mas antes que o tem, sendo, contudo, interrompido com a morte – ou talvez, mais radicalmente, anulado. Neste caso, tudo o que Deus faria seria impedir que o sentido que a vida já tem fosse interrompido ou anulado. Se for esta a ideia, então é literalmente falso que sem Deus a vida não tem sentido; o que seria verdadeiro, neste caso, é que sem Deus o sentido da vida seria interrompido ou anulado.
No segundo caso, em que Deus nos atribuiria um propósito ou missão, é difícil compreender como poderia isso dar sentido à nossa vida. Não poderia ser apenas, certamente, por ser uma missão atribuída por Deus, pois podemos sem dificuldade pensar em missões que Deus nos atribuiria e que seriam destituídas de sentido – como contar os grãos de areia do deserto do Sara, por exemplo, ou tentar insistentemente voar até à Lua a bater os braços. Claro que Deus não nos atribuiria missões tão tolas, mas isto mostra que não é por Deus nos atribuir uma missão que essa missão pode dar sentido à nossa vida. Se uma missão dá sentido à nossa vida, é por ser a missão que é e não por ter sido atribuída por Deus. Na melhor das hipóteses, uma missão que já tenha sentido pode ganhar mais importância se nos for atribuída por Deus. Daqui conclui-se que a inexistência de Deus é compatível com o sentido da vida, desde que o género de propósito ou missão que Deus nos poderia atribuir continue a existir.
O primeiro caso, em que Deus daria sentido à nossa vida estabelecendo o que tem valor, já foi brevemente discutido no capítulo anterior. Já vimos que há razões para crer que Deus não pode estabelecer o que tem e o que não tem valor; quando muito, pode ajudar-nos a descobrir o que tem e o que não tem valor.

Se Deus não é uma fonte promissora do sentido da vida, o que poderá ser? Ou será que a vida não tem sentido?

MURCHO, D., Filosofia em Direto, Relógio de Água Editores, Lisboa, 2011, págs. 54 – 55.

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