"Estamos
a assistir ao fim de uma civilização, e podemos dizer que esta se
encerra com a queda em bloco dos sistemas totalitários nos países do
Leste da Europa. Ainda permanecem alguns redutos dessa mesma linha
política e ideológica se bem que se anunciem por outro lado novas
prisões para o homem, com outra roupagem e rostos bem diversos.
Assim como nos últimos anos entraram na moda certos produtos light – o tabaco, algumas bebidas e certos alimentos –, também se foi gerando um tipo de homem que poderia ser qualificado como o homem light.
Qual
é o seu perfil psicológico? Como poderia ser definido? Trata-se de um
homem relativamente bem informado, porém com escassa educação humana,
entregue ao pragmatismo, por um lado, e a bastantes lugares comuns, por
outro. Tudo lhe interessa, mas só a nível superficial; não é capaz de
fazer a síntese daquilo que recolhe e por conseguinte, foi-se
convertendo num sujeito trivial, vão, fútil, que aceita tudo mas que
carece de critérios sólidos na sua conduta. Nele tudo se torna etéreo,
leve, volátil, banal, permissivo. Presenciou tantas mudanças, tão
rápidas e num tempo tão curto, que começa a não saber a que ater-se ou, o
que é o mesmo, faz suas afirmações como «tudo vale», «tanto faz» ou «as
coisas mudaram». E assim encontramo-nos com um bom profissional na sua
especialidade, que conhece bem a tarefa que tem entre mãos, mas que fora
desse contexto está à deriva, sem ideias claras, apegado – como está – a
um mundo cheio de informação, que o distrai, mas que pouco a pouco o
converte num homem superficial, indiferente, permissivo, gerando nele
um grande vazio moral.
As conquistas técnicas e científicas – impensáveis até há bem poucos anos – trouxeram-nos progressos evidentes: a revolução informática, os avanços da ciência nos seus diversos âmbitos, uma ordem social mais justa e perfeita, a preocupação em aplicar os direitos humanos, a democratização de tantos países e, agora, a queda em bloco
do comunismo. Porém, diante de tudo isto há que pôr sobre a mesa
aspectos da realidade que funcionam mal e que mostram a outra face da
moeda:
a) materialismo: faz com que um indivíduo tenha certo reconhecimento social pela única razão de ganhar muito dinheiro.
b) hedonismo: viver
bem à custa do que quer que seja é o novo código de comportamento, o
que atira para a morte dos ideais, o vazio de sentido e a busca de uma
série de sensações cada vez mais novas e excitantes.
c) permissividade: destrói os melhores propósitos e ideais.
d) revolução sem finalidade e sem programa: a ética permissiva substitui a moral o que produz uma desordem generalizada.
e) relativismo: tudo é relativo com o que se cai na absolutização do relativo; brotam assim umas regras presididas pela subjectividade.
f) consumismo: representa a fórmula pós-moderna da liberdade.
Deste
modo, as grandes transformações sofridas pela sociedade nos últimos
anos são, ao princípio contempladas com surpresa, logo a seguir com uma progressiva
indiferença ou, noutros casos, como necessidade de aceitar o
inevitável. A nova epidemia de crises e rupturas conjugais, o drama das
drogas, a marginalização de tantos jovens, o desemprego e outros factos
da vida quotidiana admitem-se sem mais, como algo que está aí e contra o
qual não se pode fazer nada".
Henrique Rojas, O Homem Light. Uma Vida sem Valores, Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1994, pp. 7-9.

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