segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ensinar e aprender



"Ensinar é, com efeito, ainda mais difícil do que aprender. Sabemo-lo bem, mas raramente reflectimos sobre isso. Por que é que ensinar é mais difícil do que aprender? Não é porque quem ensina deva possuir uma soma maior de conhecimentos, tendo-os sempre disponíveis. Ensinar é mais difícil do que aprender
porque ensinar quer dizer 'fazer aprender'. Aquele que verdadeiramente ensina não ensina mais nada que não seja a aprender. É por isso que a sua acção desperta sempr a ideia de que perto dele, propriamente dito, não se aprende nada. E isso é porque entendemos por 'aprender' uma aquisição exclusiva de conhecimentos utilizáveis, entendemo-lo inconsideradamente. Quem ensina só ultrapassa os aprendizes nisto: no facto de dever aprender ainda muito mais do que eles, pois que deve ensinar a 'fazer
aprender'. Quem ensina deve ser mais dócil do que o aprendiz. Quem ensina está muito menos seguro do que faz do que aqueles que aprendem. É por isso que na relação entre aquele que ensina e aqueles que aprendem, quando é uma relação verdadeira, nem a autoridade do multisciente nem a influência autoritária do que desempenha uma tarefa entram em jogo. É por isso que é uma grande coisa ser-se um
'ensinante' e é algo totalmente diferente o ser-se um professor célebre. Se hoje em dia – em que tudo se mede sobre a falta de exigência e de acordo com essa falta de exigência, por exemplo sob o ponto de vista do lucro – ninguém quer mais tornar-se um 'ensinante', isso deve-se, sem dúvida alguma, ao que essa 'grande coisa' implica, e à sua grandeza. Devemos manter sempre presente a verdadeira relação entre aquele
que ensina e o aprendiz, se é que queremos que no processamento deste curso haja aprendizagem".


Martin Heidegger, Qu'appelle-t-on penser?, P.U.F., 1983, p. 89.

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