"Ensinar é, com efeito, ainda mais difícil do
que aprender. Sabemo-lo bem, mas raramente reflectimos sobre isso. Por que é que
ensinar é mais difícil do que aprender? Não é porque quem ensina deva possuir
uma soma maior de conhecimentos, tendo-os sempre disponíveis.
Ensinar é mais difícil do que aprender
porque ensinar quer dizer 'fazer aprender'.
Aquele que verdadeiramente ensina não ensina mais nada que não seja a aprender. É por
isso que a sua acção desperta sempr a ideia de que perto dele, propriamente dito,
não se aprende nada. E isso é porque entendemos por 'aprender' uma aquisição
exclusiva de conhecimentos utilizáveis, entendemo-lo inconsideradamente. Quem ensina só
ultrapassa os aprendizes nisto: no facto de dever aprender ainda muito mais do que
eles, pois que deve ensinar a 'fazer
aprender'. Quem ensina deve ser mais dócil do
que o aprendiz. Quem ensina está muito menos seguro do que faz do que aqueles que
aprendem. É por isso que na relação entre aquele que ensina e aqueles que
aprendem, quando é uma relação verdadeira, nem a autoridade do multisciente nem
a influência autoritária do que desempenha uma tarefa entram em jogo. É por isso
que é uma grande coisa ser-se um
'ensinante' e é algo totalmente diferente o ser-se
um professor célebre. Se hoje em dia – em que tudo se mede sobre a falta de exigência
e de acordo com essa falta de exigência, por exemplo sob o ponto de vista do
lucro – ninguém quer mais tornar-se um 'ensinante', isso deve-se, sem dúvida alguma,
ao que essa 'grande coisa' implica, e à sua grandeza. Devemos manter sempre presente a
verdadeira relação entre aquele
que ensina e o aprendiz, se é que queremos que
no processamento deste curso haja aprendizagem".
Martin Heidegger, Qu'appelle-t-on penser?, P.U.F., 1983, p. 89.

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