segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Toda a consciência é consciência de algo



“Toda a consciência, como Husserl o mostrou, é consciência de alguma coisa. Isso significa que não há consciência que não seja posição de um objecto transcendente, ou, se preferirmos, que a consciência não tem ‘conteúdo’. É preciso renunciar a esses ‘dados’ neutros que poderiam, segundo o sistema de referência escolhi do, constituir-se em ‘mundo’ ou em ‘psíquico’. Uma mesa não está na consciência, mesmo a título de representação. Uma mesa está no espaço, ao lado da janela, etc. Com efeito, a existência da mesa é um centro de opacidade para a consciência; seria necessário um processo infinito para inventariar o conteúdo total de uma coisa. Introduzir esta capacidade na consciência seria reportar ao infinito o inventário que ela pode traçar de si mesma, fazer da consciência uma coisa e recuperar o cogito. O primeiro procedimento
de uma Filosofia deve, pois, ser o de expulsar as coisas da consciência e restabelecer a verdadeira relação desta com o mundo, a saber, que a consciência é posicional do mundo. Toda a consciência é posicional, no sentido em que se transcende para atingir um objecto, e ela esgota-se nessa mesma posição: tudo o que há de intenção na minha consciência actual é dirigido para fora, para a mesa; todas as minhas actividades judicativas ou práticas, toda a minha afectividade do momento se transcendem, visam a mesa e nela se absorvem. Nem toda a consciência é conhecimento (há consciências afectivas, por exemplo), mas toda a consciência conhecente não pode ser conhecimento senão do seu objecto”.

                                                Jean-Paul Sartre, O Ser e o Nada, Círculo de Leitores, Lisboa, 1993, pp. 14-15.

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