“Toda
a consciência, como Husserl o mostrou, é consciência de alguma coisa. Isso significa
que não há consciência que não seja posição de um objecto transcendente, ou,
se preferirmos, que a consciência não tem ‘conteúdo’. É preciso renunciar a
esses ‘dados’
neutros que poderiam, segundo o sistema de referência escolhi do, constituir-se em
‘mundo’ ou em ‘psíquico’. Uma mesa não está na consciência, mesmo a título de representação.
Uma mesa está no espaço, ao lado da janela, etc. Com efeito, a existência
da mesa é um centro de opacidade para a consciência; seria necessário um processo
infinito para inventariar o conteúdo total de uma coisa. Introduzir esta capacidade
na consciência seria reportar ao infinito o inventário que ela pode traçar de si
mesma, fazer da consciência uma coisa e recuperar o cogito. O primeiro
procedimento
de
uma Filosofia deve, pois, ser o de expulsar as coisas da consciência e restabelecer
a verdadeira relação desta com o mundo, a saber, que a consciência é posicional
do mundo. Toda a consciência é posicional, no sentido em que se transcende
para atingir um objecto, e ela esgota-se nessa mesma posição: tudo o que há
de intenção na minha consciência actual é dirigido para fora, para a mesa; todas
as minhas
actividades judicativas ou práticas, toda a minha afectividade do momento se transcendem,
visam a mesa e nela se absorvem. Nem toda a consciência é conhecimento
(há consciências afectivas, por exemplo), mas toda a consciência conhecente
não pode ser conhecimento senão do seu objecto”.
Jean-Paul Sartre, O Ser e o Nada, Círculo de Leitores, Lisboa, 1993, pp. 14-15.

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