sábado, 21 de junho de 2014

Viver Juntos

«Para que pode servir a Filosofia contemporânea?
Para viver juntos da melhor maneira: no debate racional,
sem o qual não existe democracia, na amizade, sem a
qual não existe felicidade, finalmente na aceitação, sem a
qual não existe serenidade. Como escreveu Marcel
Conche a propósito de Epicuro, "trata-se de conquistar a
paz (pax, ataraxia) e a philia, ou seja a amizade consigo
próprio e a amizade com o outro." Eu acrescentaria: e
com a Cidade, o que é política, e com o mundo - que
contém o eu, o outro, a Cidade… -, o que é sabedoria.
Dir-se-á que isso não é novo… A Filosofia nunca o é.

A sabedoria é-o sempre.»
                                                                                   
                                                                                   André Comte-Sponville

terça-feira, 17 de junho de 2014

Trabalho dos Alunos: Criação de Blogs no âmbito "da dimensão estética - análise e compreensão da experiência estética”

O reconhecimento da especificidade da experiência estética no triplo registo de experiência da natureza, da criação artística e da contemplação da obra de arte, constitui um momento do conteúdo “a dimensão estética - análise e compreensão da experiência estética”, conteúdo este lecionado no presente ano letivo e no âmbito da disciplina de Filosofia, no seu décimo ano de escolaridade.
Assim sendo, os alunos que frequentaram a disciplina de Filosofia neste domínio foram convidados a comunicar a sua experiência estética, uma vez colocados perante obras de autores, portugueses e estrangeiros, dos mais variados setores da atividade artística. Estimulados, que foram, para a atribuição de um valor estético à criação artística, os alunos estudaram o ponto de vista de alguns autores, ao mesmo tempo que os enquadraram numa perspetiva evolutiva do próprio conceito de arte.

A reflexão sobre a arte e a criação artística materializou-se, pois, numa proposta de produção de juízos de teor estético “em primeira mão”, alguns dos quais inseminados nas escolhas de tendências artísticas posteriormente presentes em trabalhos efetuados pelos alunos. Visitem-se alguns desses trabalhos.



Teorema II

"Princípios práticos são proposições que contêm uma determinação geral da vontade, a qual inclui em si várias regras práticas. São subjetivos, ou máximas, quando a condição é considerada pelo sujeito como válida unicamente para a sua vontade; mas são objetivos, ou leis práticas, quando essa condição é reconhecida como objetiva, isto é, válida para a vontade de todo o ser racional."
KANT, I., Crítica da Razão Prática, Ed. 70, p. 29.


Teorema II


"Todos os princípios práticos materiais são, enquanto tais, no seu conjunto, de uma só e mesma espécie e classificam-se sob o princípio geral do amor de si ou da felicidade pessoal.
O prazer proveniente da representação da existência de uma coisa, na medida em que ele deve ser um princípio determinante do desejo dessa coisa, funda-se na capacidade de sentir do sujeito, porque depende da existência de um objeto; por conseguinte, pertence ao sentido (sensibilidade [Gefühl]), e não ao entendimento, que exprime uma relação da representação a um objeto (Objekt), segundo conceitos, mas não ao sujeito, segundo sentimentos. Portanto, ele é prático só enquanto a sensação de agrado, que o sujeito espera da realidade do objeto (Gegenstand), determina a faculdade de desejar. Ora, a consciência que um ser racional tem do agrado da vida, que acompanha ininterruptamente toda a sua existência, é a felicidade (Glückseligkeit), e o princípio de fazer desta felicidade o supremo princípio determinante é o princípio do amor de si. Por conseguinte, todos os princípios materiais que colocam a causa determinante do livre arbítrio no prazer ou desprazer, que se deve sentir a partir da realidade de um objeto qualquer, são inteiramente da mesma espécie, na medida em que, no seu conjunto, pertencem ao amor de si ou da felicidade pessoal."

KANT, I., Crítica da Razão Prática, Ed. 70, pp. 32-33.

O meu coração bate por ti

"O amor é um sentimento ou uma emoção? A mesma palavra abrange as duas dimensões. A emoção de amor é intensa, violenta, desencadeia sensações físicas fortes, o coração/músculo é solicitado, sentimo-lo vibrar, estremecer, bater… (É daí que vem a expressão “O meu coração bate por ti”?)
O sentimento de amor constrói-se dia após dia, alimenta-se com a emoção de amor mas não se reduz a ela. Sentimo-nos contentes, felizes com o outro numa relação que já não precisa da presença permanente. O laço existe, estamos prontos para atravessar juntos as dificuldades da vida. A felicidade inscreve-se na duração. No casal, cumplicidade e solidariedade tornam-se mais importantes que erotismo e sedução. As palpitações cardíacas dão lugar a vibrações mais subtis. Como descrevê-las? Alguns evocam um fogo no peito, formigueiros, uma sensação de onda que sobe, invade e se apaga docemente deixando-nos saciados e serenos. A emoção de amor está muito presente no início de uma relação, na descoberta do universo do outro e no fogo da paixão. Surge de novo quando há um reencontro depois de uma separação, quando alguém que nos é próximo está em perigo… mas também no momento de um ramo de flores, de uma atenção terna e de cada vez que se pronunciam estas deliciosas palavras: “Amo-te”.
Tanto o amor materno como o paterno são também sentimentos que se escoram numa relação tecida dia após dia.
O sentimento de amor instala-se progressivamente; para durar precisa de ser pontuado por emoções ternas."


FILLIOZAT, I., A Inteligência do Coração. Rudimentos de Gramática Emocional,
Editora Pergaminho, 2001, pp.185-186.


A morte como o último exame da existência

"Será que a morte é temível? Será que pode ser domesticada ou acolhida quase como amiga? Encontramos pessoas que não têm medo da morte, outras que, em sentido contrário, não querem pensar nela por causa do terror que lhes inspira. E as perguntas a seu respeito não faltam: porque é que a morte existe? O que acontece na morte? Será que perderemos todo o contacto com as pessoas que temos conhecido em vida? Porque é que a morte nos obriga a abandonar tudo aquilo que fez a espessura dos nossos desejos e, mais radicalmente, do nosso desejo de viver? Tive desde há muito tempo a ideia, ou mais exatamente, a impressão de que a morte é o último exame da vida, e mesmo o mais difícil. Isso pressupõe que a morte é figurada como uma prova que nos é imposta, a morte põe-nos à prova. É estranho que o termo prova signifique ao mesmo tempo um exame, um periculum, uma espécie de perigo que não se pode evitar nem contornar, mas também um ato ou um testemunho destinado a apresentar provas."


Viver a morte – sabedoria e tempo vivido, Isabel Carmelo R. Renaud, in O fim da vida, José Henrique Silveira de Brito (coord.), Publicações da Faculdade de Filosofia – UCP, Braga, 2007, p. 145.

A dimensão simbólica do Homem

Digamos (…) que não basta (…) a dimensão dos sinais, para “fazer” a nossa humanidade. Aliás, os semióticos mais rigorosos, como por exemplo um dos pais fundadores, Thomas Sebeok, nunca pretenderam com ela fazer discriminações entre nós seres humanos e o resto do universo animal ou vegetal, até fazer disso uma espécie de condição kantiana transcendental da experiência. Sebeok tentou fundar uma grande e omnicompreensiva zoosemiótica. O Homem, portanto, não é um animal segnicum ou, pelo menos, esta é a condição não suficiente para constituir a sua humanidade; será preciso defini-lo antes, como sustentava Ernest Cassirer, animal symbolicum

GEVALÉRY, P., Discurso sobre a Estética, Tomo II, Lisboa, 1989, p.54.

sábado, 7 de junho de 2014

As Gerações Futuras

Será que podemos ter a certeza que as futuras gerações irão apreciar a natureza? Não se sentirão, talvez, mais felizes sentadas em centros comerciais com ar condicionado, entretidas em jogos de computador mais sofisticados do que alguém pode imaginar? É possível. Mas há diversas razões para não atribuirmos demasiado peso a esta possibilidade. Em primeiro lugar, a tendência tem-se manifestado na direcção oposta: o apreço pela natureza nunca foi tão grande como actualmente, em especial nos países que resolveram os problemas da pobreza e da fome e onde restam relativamente poucas terras virgens. Esta é valorizada como algo de extrema beleza, como um repositório de conhecimento científico ainda por conquistar, pelas oportunidades recreativas que proporciona e porque muita gente fica feliz por saber que ainda resta alguma coisa natural, que a civilização moderna deixou relativamente intata. Se, como todos temos esperança, as futuras gerações forem capazes de satisfazer as necessidades básicas da maioria das pessoas, é de esperar que, durante séculos, também elas valorizarão a natureza pelas mesma razões que nós.
Os argumentos a favor da preservação do meio natural baseados na sua beleza são por vezes tratados como se tivessem pouco valor, por serem «meramente estéticos». Trata-se de um erro. Dedicamos um grande esforço à conservação dos tesouros artísticos de civilizações humanas anteriores. É difícil imaginar qualquer ganho económico que estivéssemos dispostos a aceitar como compensação adequada para, por exemplo, a destruição dos quadros do Louvre. Como deveremos comparar o valor estético da natureza com as pinturas do Louvre? Neste caso talvez o juízo se torne inevitavelmente subjectivo; de modo que relatarei a minha própria experiência. Contemplei quadros no Louvre e em muitas das outras galerias da Europa e dos Estados Unidos. Penso que tenho um sentido razoável de apreciação das belas-artes; contudo, não tive, em museu algum, experiências que tivessem preenchido o meu sentido estético da forma como me sinto realizado quando caminho por um cenário natural e faço uma pausa para admirar do alto de um pico rochoso a paisagem de um vale coberto de floresta ou me sento junto de uma torrente que serpenteia sobre seixos cobertos de musgo no meio de altos fetos, que crescem à sombra do dossel da floresta. Creio não ser o único a sentir tal exaltação; para muita gente, a natureza constitui a fonte dos mais altos sentimentos de emoção estética, elevando-se a uma intensidade quase espiritual.
Apesar de tudo é possível que este apreço pela natureza não venha a ser partilhado pelas pessoas que viverem daqui a um século ou dois. Mas, se a vida selvagem pode ser fonte de uma alegria e de uma satisfação profundas, isso será uma grande perda. Até certo ponto, depende de nós que as futuras gerações gostem ou não da natureza; trata-se, pelo menos, de uma decisão sobre a qual podemos exercer alguma influência. Mediante a nossa preservação da natureza, damos a oportunidade às futuras gerações e, por meio de livros e filmes, criamos uma cultura que pode ser transmitida aos nossos filhos e aos nossos netos. Se sentirmos que um passeio pela floresta, com os sentidos sintonizados para a apreciação dessa experiência, é uma forma mais gratificante de passar o dia do que entretermo-nos com jogos de computador, ou se sentirmos que levar comida e abrigo na mochila para passarmos uma semana a andar de bicicleta por um ambiente natural intacto contribuirá mais para desenvolver o carácter do que ficar a ver televisão durante um período equivalente, nesse caso devemos encorajar as futuras gerações a ter sentimentos de apreço pela natureza; se acabarem por preferir jogos de computador, é sinal de que não conseguimos esse intento.
Por fim, se mantivermos intactas as extensões naturais que ainda existirem, as futuras gerações terão pelo menos a escolha de largar os jogos de computador e sair para contemplar um mundo que não foi criado por seres humanos. Se destruirmos o meio natural, essa opção perde-se para sempre.

Peter Singer, Ética Prática, 1993, trad. de Álvaro Augusto Fernandes, pp. 294-296.


domingo, 1 de junho de 2014

O Natal está a aproximar-se

O Natal está a aproximar-se. É um facto conhecido por todos, porém nem todos vivem ou experienciam o natal, tal como eu o conheço. É isso que agora irei partilhar…
O Natal é a altura do ano pela qual todos os elementos da nossa família anseiam. É a oportunidade de em cada ano que passa, celebrarmos o que nos une e nos é de mais precioso. Todos os anos acontece a mesma azáfama! Fazemos tudo juntos. Todos, sem exceção, têm tarefas a executar e que acontecem como pura magia. Não são estabelecidos quaisquer planos, ou estratégias de ação. Tudo aparece feito. Os mais pequenos ocupam-se, antecipando as brincadeiras e o entretenimento, os adultos preparam o manjar com o qual nos iremos deleitar e os menos jovens, porém indispensáveis, recordam com saudade o tempo em que foram meninos...

A cumplicidade que nos une dispensa a definição de timings e de papéis a desempenhar. É tudo muito simples e acontece com igual simplicidade. Vive-se um enorme rebuliço, que a todos envolve e a todos toca verdadeiramente. Não conseguiríamos sobreviver ao resto do ano sem esta renovação de afetos e sem esta possibilidade de partilhar, aquilo que nos é mais precioso: o amor que nos une e que nos faz sentir vivos e únicos. Este eterno retorno, anual e intemporal é o nosso “nascimento do deus menino”, que não se deixa materializar e que não significa Natal. É difícil, por aqui se vê, apontar aspetos negativos ou argumentar contra este Natal... Talvez o aspeto negativo a apontar seja a sua ausência como tal e a forma como tantas vezes é reduzido a nada… Há troca de prendas e não há troca de afetos. Há troca de emails em que nada se transmite e nada se faz sentir. Reenviam-se palavras feitas por outrem, que não singularizam a importância de cada pessoa, e que matam o Natal. 

Texto do aluno Luís Fernando de Faria Ferreira, 12.º1 ( EBS DR. Luís Maurílio da Silva Dantas), distinguido com uma Menção Honrosa no concurso “Uma Aventura Literária 2014”, edições Caminho