quarta-feira, 30 de abril de 2014

Frustração e Apatia

"Um aspeto desconcertante do comportamento humano é a tendência para que situações semelhantes levem diferentes indivíduos a comportamento diametralmente opostos. Embora a agressão ativa seja uma reação comum à frustração, outra reação é o seu oposto- apatia, indiferença, afastamento, inatividade, desatenção. Não sabemos porque é que uma pessoa reage com agressão e outra com apatia à mesma situação frustradora, mas parece provável que a aprendizagem seja um fator importante; é possível aprender as reações à frustração da mesma forma que outros hábitos. A criança que bate encolerizada quando fica frutrada e descobre então que a sua necessidade é satisfeita (seja através dos seus esforços, seja porque um dos seus pais se apressa a acalmá-la), da próxima vez que os seus motivos sejam contrariados recorrerá provavelmente ao mesmo tipo de comportamento. A criança cujas explosões agressivas nunca obtêm êxito, que verifica que é impotente para satisfazer as suas necessidades através do seu comportamento, pode recorrer à apatia e ao afastamento perante uma situação frustradora."
Hilgard, E. e Atkinson, R., Introdução à Psicologia, Nacional, 1980, p.511

Diário de Anne Frank

"Nem sempre me tratam da mesma maneira. Um dia pertenço à classe dos adultos e posso saber tudo, e no dia seguinte a Anne não passa de um ser inexperinete que julga ter aprendido alguma coisa nos livros mas que, na realidade, não sabe coisa de jeito. Ora eu não sou um bebé nem uma boneca para os divertir. Tenho os meus ideais, o meu modo de pensar e os meus planos, embora ainda me falte a capacidade de traduzir tudo isto em palavras. Ai! tantas, tantas dúvidas que se me levantam quando estou só, à noite, ou mesmo durante o dia quando estou encerrada com toda esta gente que já não posso ver à minha frente e de que estou farta até não poder mais. Eles nada compreendem dos meus problemas. Assim, volto sempre ao meu diário. É ele o meu princípio e o meu fim. A ti, Kitty, nunca te falta a paciência e prometo-te que hei-de aguentar. Hei-de vencer a minha dor e consguir o meu caminho. Só gostava de ter, de vez em quando, um pouco de sucesso, de ser estimulada e encorajada, por alguém que tivesse amor!
Não me condenes! Por favor, compreende que, às vezes, não posso mais!
Frank, A., O Diário de Anne Frank, Livros do Brasil, s/d, pp.69-71



O Senso Comum

O senso comum julga-se dono de verdades eternas. Não tendo o refinamento da ciência, guardada as suas “verdades” com zelo e recusa-se a aceitar as teorias científicas que o contradigam. Assim é que o heliocentrismo teve de esperar cerca de dois séculos para se integrar na cultura geral, enquanto a teoria da evolução ainda está muito longe de ser consensualmente aceite.
O senso comum acredita que diferentes pessoas, vendo o mesmo fenómeno, veem sempre a mesma coisa. Isso é um puro equívoco; há figuras de cubos, pirâmides, escadas, rostos, etc. que examinadas, até pela mesma pessoa, podem mostrar-se, depois de alguns segundos., diferentes da forma como se mostravam a princípio. Quando duas pessoas olham uma dessas figuras, pode acontecer que num mesmo momento uma esteja a ver algo bem diferente do que a outra vê. A expressão “eu vi com os meus próprios olhos” não oferece garantia alguma de que seja verdade o que se diz.

Newton Freire Maia, A ciência por Dentro, Vozes, 1991, p.21.

domingo, 20 de abril de 2014

A cidade


"Observamos que toda a cidade é uma certa forma de comunidade e que toda a comunidade é constituída em vista de algum bem. É que, em todas as suas ações, todos os homens visam o que pensam ser o bem. É, então, manifesto que, na medida em que todas as comunidades visam algum bem, a comunidade mais elevada de todas e que engloba todas as outras visará o maior de todos os bens. Esta comunidade é chamada ‘cidade’, aquela que toma a forma de uma comunidade de cidadãos.
(…)
A cidade, enfim, é uma comunidade completa, formada a partir de várias aldeias e que, por assim dizer, atinge o máximo de autossuficiência. Formada a princípio para preservar a vida, a cidade subsiste para assegurar a vida boa. É por isso que toda a cidade existe por natureza, se as comunidades primeiras assim o foram. A cidade é o fim destas, e a natureza de uma coisa é o seu fim, já que, sempre que o processo de génese de uma coisa se encontre completo, é a isso que chamamos a sua natureza, seja de um homem, de um cavalo ou de uma casa. Além disso, a causa final, o fim de uma coisa, é o seu melhor bem, e a autossuficiência é, simultaneamente, um fim e o melhor dos bens."



Aristóteles, Política, Coleção Veja, 1998, 1252a – 1253a.

Eugenia: o nome e a coisa


"(…) O termo eugenia foi cunhado por Francis Galton. Contudo, sem o nome, a defesa da eugenia é um elemento recorrente na história. A leitura de clássicos como A República, de Platão, ou, mais tarde, A cidade do Sol, de Tomás Campanela, permite recortar duas linhas de força: a eliminação de seres humanos com malformações genéticas, a chamada eugenia negativa, e uma política de promoção de casamentos entre os melhores (eugenia positiva). Um novo impulso ao eugenismo é dado pela biologia molecular, que, como sublinha, Diego Garcia, surge no “interior de um programa eugénico”.
Se olharmos para o último século de história, verificamos que o chamado “eugenismo científico” teve refracções políticas, alicerçando um eugenismo centralizado, em regimes democráticos (por exemplo, os EUA ou os países escandinavos) ou totalitários (paradigmaticamente, a Alemanha nacional-socialista). Assentava em políticas de esterilização e de proibição de casamentos e, no caso do nazismo, na pura e simples eliminação (programas da chamada – impropriamente – “morte piedosa”). Em termos históricos, verifica-se que, entre nós, não sendo desconhecido esse debate, e tendo até Egas Moniz proposto, de uma forma limitada, a esterilização, a matriz cultural funcionou (…) como uma barreira.
Se, tradicionalmente, tínhamos um eugenismo de Estado, centralizado ou autoritário, assistimos agora a um processo de transição para um eugenismo individual ou liberal, de um eugenismo privilegiando a espécie para um eugenismo centrado em escolhas individuais e entregue, fundamentalmente, ao mercado. A novíssima revolução genética disponibilizou quer ao nível do diagnóstico, quer da intervenção, uma panóplia de possibilidades que levanta novos problemas, tocando na “natureza humana”, entendida como dotação genética. (…)"

João Carlos Loureiro, in Jürgen Habermas, O Futuro da Natureza Humana. A Caminho de uma Eugenia Liberal?, Almedina, 2006, pp. 10-12.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Maturidade Moral


Em sociedades moralmente sãs, o comum dos mortais segue a sua voz íntima, a maior parte das vezes inconscientemente, não rouba nem mata, porque, num mundo de pessoas responsáveis, a sua agulha magnética moral funciona normalmente. Em épocas de revolução e de crise, pelo contrário […], a consciência moral torna-se insegura e incerta.
[…] A fuga à responsabilidade é o mais claro indício de falência de maturidade moral. Só pela sua aceitação nos libertaremos, só pela participação responsável na vida do Estado nos tornaremos cidadãos; só pela aceitação da responsabilidade pelas nossas ações nos tornaremos pessoas. Mesmo os grupos e as nações só alcançam o estádio de maturidade e se tornam, em sentido próprio, civilizados quando satisfazem estas exigências. Porque é isto essencial? Pelo facto de, sem fundamento moral, ordem alguma de grupos humanos ser possível, desde a família ao Estado e à comunidade dos povos. Não só os fundamentos últimos do direito são de espécie moral, mas também uma ordem social não se pode manter sem normas éticas.

                                                                 FRITZ Heinemann, A Filosofia do Século XX (adaptado)