segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Realidade e Aparência

            Já que estamos a discutir atitudes sobre a relação entre percepção e realidade, esta é uma boa altura para introduzir um ponto de vista, o realismo ingénuo, que é frequente entre pessoas pouco informadas e estudantes que estão a começar a estudar a percepção. Segundo este ponto de vista, o mundo é sempre exactamente como aparece.
            Um teste simples pode determinar se alguém é um realista ingénuo; se lhe perguntarmos "Por que te parece o mundo desta maneira?" o realista ingénuo responderá: "Porque o mundo é desta maneira". Por outras palavras, as propriedades da experiência podem ser sempre completa e facilmente explicadas pelas propriedades do próprio mundo. Mas este ponto de vista simples sobre a percepção está errado, pois não pode explicar por que razão pessoas diferentes têm experiência do mesmo acontecimento ambiental de maneira diferente. E isso acontece. Sabe-se que as crianças não podem ver objectos pequenos que os adultos conseguem ver, sabe-se que os jovens adultos podem ouvir alguns sons que os adultos mais velhos não conseguem ouvir, e sabe-se que certas pessoas são completamente insensíveis a odores que outros cheiram sem qualquer problema. Estes factos colocam em questão o realismo ingénuo. Todos vivemos no mesmo mundo físico. Se o realismo ingénuo fosse um ponto de vista válido, os nossos mundos perceptivos não seriam idênticos?
            No outro extremo do realismo ingénuo situa-se o idealismo subjectivo, o ponto de vista segundo o qual o mundo físico é inteiramente o produto da mente, uma ficção mental convincente. Geralmente associa-se esta posição filosófica ao filósofo irlandês George Berkeley, que resumiu a ideia na expressão "ser é perceber" [percepcionar]. Levada ao seu extremo, esta posição conduz ao solipsismo, a ideia de que só a nossa mente existe e de que todos os outros objectos do mundo são percepções da nossa mente. Pode ser divertido discutir esta posição com os amigos, mas ela é cientificamente estéril. Se não houvesse qualquer mundo em que existíssemos, não haveria qualquer razão para estudar a relação entre a percepção e esse mundo imaginário.
            Depois de termos rejeitado o realismo ingénuo e o solipsismo, o que propomos quanto às relações entre as percepções humanas e o mundo real? Reconhecemos a existência do mundo real e afirmamos que a sua existência não depende de um observador. Ao mesmo tempo, reconhecemos a contribuição do próprio observador para o processo da percepção. A visão que o observador tem do mundo é necessariamente imprecisa, porque o sistema sensorial do observador limita a informação disponível ao mesmo tempo que aumenta essa informação.
            Para mostrar com mais exactidão o que queremos dizer com a contribuição do observador, considere-se uma questão conhecida: "Será que uma árvore a cair na floresta produz algum som se não estiver ninguém por lá para ouvi-lo?" Segundo o solipsista, na ausência de um observador não existe qualquer árvore, floresta ou som. Mas, segundo o nosso ponto de vista, para além de a árvore a cair existir mesmo que nenhum observador esteja por perto, a sua queda criaria energia acústica na forma de ondas de pressão de ar. Mas isso constituiria som? Se o termo "som" corresponde a uma experiência perceptiva, então é óbvio que a árvore a cair não produz som. Para que a árvore produza som, é necessária a presença de um organismo com um sistema sensorial capaz de registar a energia acústica disponível. Mas mesmo isto não garante que a experiência resultante corresponda àquilo a que normalmente chamamos som. É concebível que o organismo presente não seja capaz de ouvir, por não ter ouvido, mas sinta a energia produzida pela árvore a cair (do mesmo modo que podemos sentir o vento a soprar de encontro à nossa pele). Para se qualificar como som, a energia tem de afectar os ouvidos de um ser humano ou de uma criatura com um sistema nervoso parecido com o do ser humano.
            Resumindo, para compreender a percepção tão bem quanto possível, temos de estudar não só as propriedades do mundo físico, mas também as propriedades do observador.



Robert Sekuler e Randolph Blake
Perception, 3ª ed., McGraw-Hill, Nova Iorque, 1994, pp. 8-11
Tradução de Pedro Galvão 

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