Já que
estamos a discutir atitudes sobre a relação entre percepção e realidade, esta é
uma boa altura para introduzir um ponto de vista, o realismo ingénuo, que é
frequente entre pessoas pouco informadas e estudantes que estão a começar a
estudar a percepção. Segundo este ponto de vista, o mundo é sempre exactamente
como aparece.
Um teste
simples pode determinar se alguém é um realista ingénuo; se lhe perguntarmos
"Por que te parece o mundo desta maneira?" o realista ingénuo
responderá: "Porque o mundo é desta maneira". Por outras palavras, as
propriedades da experiência podem ser sempre completa e facilmente explicadas
pelas propriedades do próprio mundo. Mas este ponto de vista simples sobre a
percepção está errado, pois não pode explicar por que razão pessoas diferentes
têm experiência do mesmo acontecimento ambiental de maneira diferente. E isso
acontece. Sabe-se que as crianças não podem ver objectos pequenos que os
adultos conseguem ver, sabe-se que os jovens adultos podem ouvir alguns sons
que os adultos mais velhos não conseguem ouvir, e sabe-se que certas pessoas
são completamente insensíveis a odores que outros cheiram sem qualquer
problema. Estes factos colocam em questão o realismo ingénuo. Todos vivemos no
mesmo mundo físico. Se o realismo ingénuo fosse um ponto de vista válido, os
nossos mundos perceptivos não seriam idênticos?
No outro
extremo do realismo ingénuo situa-se o idealismo subjectivo, o ponto de vista
segundo o qual o mundo físico é inteiramente o produto da mente, uma ficção
mental convincente. Geralmente associa-se esta posição filosófica ao filósofo
irlandês George Berkeley, que resumiu a ideia na expressão "ser é
perceber" [percepcionar]. Levada ao seu extremo, esta posição conduz ao
solipsismo, a ideia de que só a nossa mente existe e de que todos os outros
objectos do mundo são percepções da nossa mente. Pode ser divertido discutir
esta posição com os amigos, mas ela é cientificamente estéril. Se não houvesse
qualquer mundo em que existíssemos, não haveria qualquer razão para estudar a
relação entre a percepção e esse mundo imaginário.
Depois de
termos rejeitado o realismo ingénuo e o solipsismo, o que propomos quanto às
relações entre as percepções humanas e o mundo real? Reconhecemos a existência
do mundo real e afirmamos que a sua existência não depende de um observador. Ao
mesmo tempo, reconhecemos a contribuição do próprio observador para o processo
da percepção. A visão que o observador tem do mundo é necessariamente
imprecisa, porque o sistema sensorial do observador limita a informação
disponível ao mesmo tempo que aumenta essa informação.
Para
mostrar com mais exactidão o que queremos dizer com a contribuição do
observador, considere-se uma questão conhecida: "Será que uma árvore a
cair na floresta produz algum som se não estiver ninguém por lá para
ouvi-lo?" Segundo o solipsista, na ausência de um observador não existe
qualquer árvore, floresta ou som. Mas, segundo o nosso ponto de vista, para
além de a árvore a cair existir mesmo que nenhum observador esteja por perto, a
sua queda criaria energia acústica na forma de ondas de pressão de ar. Mas isso
constituiria som? Se o termo "som" corresponde a uma experiência
perceptiva, então é óbvio que a árvore a cair não produz som. Para que a árvore
produza som, é necessária a presença de um organismo com um sistema sensorial
capaz de registar a energia acústica disponível. Mas mesmo isto não garante que
a experiência resultante corresponda àquilo a que normalmente chamamos som. É
concebível que o organismo presente não seja capaz de ouvir, por não ter
ouvido, mas sinta a energia produzida pela árvore a cair (do mesmo modo que
podemos sentir o vento a soprar de encontro à nossa pele). Para se qualificar
como som, a energia tem de afectar os ouvidos de um ser humano ou de uma
criatura com um sistema nervoso parecido com o do ser humano.
Resumindo,
para compreender a percepção tão bem quanto possível, temos de estudar não só
as propriedades do mundo físico, mas também as propriedades do observador.
Robert Sekuler e
Randolph Blake
Perception, 3ª ed., McGraw-Hill, Nova Iorque, 1994, pp. 8-11
Tradução de Pedro Galvão
Perception, 3ª ed., McGraw-Hill, Nova Iorque, 1994, pp. 8-11
Tradução de Pedro Galvão
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