Durante séculos, os filósofos
debateram o modo como os seres humanos podem conhecer o mundo exterior. Os seus
argumentos reflectiram uma preocupação quanto à validade das experiências
sensoriais. Embora a nossa concepção do mundo derive da informação dos nossos
sentidos, poder-se-á confiar nesses sentidos para conhecer a verdade? Não
poderemos estar iludidos em relação ao mundo? Talvez, como Platão sugeriu no
Livro VII da República, sejamos como prisioneiros numa caverna, isolados
do mundo de tal forma que só podemos ver uma sombra do mundo exterior.
Na
verdade, as pessoas já sabem há muito tempo que os seus sentidos são falíveis.
Ao compreenderem que a informação sensorial não era totalmente fidedigna, os
filósofos tornaram-se cada vez mais cépticos quanto à nossa capacidade para
conhecer o mundo tal como realmente é. Este cepticismo atingiu o seu ponto mais
elevado durante o final do século XVII e o início do século XVIII. Durante essa
época, o filósofo britânico John Locke fez uma observação crucial: a água de um
recipiente pode parecer quente ou fria ao tacto, consoante o sítio em que a
nossa mão acabou de estar. Se a nossa mão esteve em água fria, a água do
recipiente parece quente; se a nossa mão esteve previamente em água quente, a
água do recipiente parece fria. O frio ou calor aparentes da água não residem
na própria água; são uma qualidade do estado do próprio sujeito. Já que, para
si, algumas qualidades percebidas do mundo exterior pareciam mais subjectivas
que outras, Locke distinguiu as qualidades primárias (qualidades reais,
efectivamente presentes nos objectos) das qualidades secundárias (que resultam
de um poder de um objecto para produzir várias sensações em nós). Entre as
qualidades primárias contavam-se o volume, o número, o movimento e a forma dos
objectos; entre as qualidades secundárias de Locke contavam-se a cor, som,
gosto e cheiro dos objectos. De acordo com esta concepção, podemos acreditar
que as qualidades primárias reflectem rigorosamente a natureza dos objectos do
mundo real, mas devemos ser prudentes ou cépticos quanto se trata de confiar do
mesmo modo nas qualidades secundárias.
Este
cepticismo relativo à informação dos sentidos foi levado a grandes extremos por
David Hume no Tratado da Natureza Humana. Hume rejeitou a distinção
entre qualidades primárias e qualidades secundárias, banindo todas as
experiências sensoriais para o domínio daquilo que é subjectivo e não é fiável.
O pessimismo de Hume quanto à possibilidade de compreendermos alguma vez a
percepção está bastante bem representado no seguinte comentário do seu Tratado:
Quanto
àquelas impressões que surgem dos sentidos, a sua causa última é, na minha
opinião, perfeitamente inexplicável pela razão humana, e será sempre impossível
decidir sem margem para dúvidas se elas surgem imediatamente do objecto, se são
produzidas pelo poder criador da mente ou se derivam do autor do nosso ser.
(Livro I, Parte III, Secção V, p. 75)
Há boas razões, no entanto, para questionar este cepticismo humano. À medida que o conhecimento dos nossos sentidos se aprofundou, acabámos por compreender que há processos que obedecem a leis que são responsáveis por coisas que antes pareciam caprichos sensoriais misteriosos. Imagina que pões óculos de sol coloridos. Se estes forem fortemente coloridos, vão mudar a aparência do mundo. Mas isto não é razão para considerar a visão inerentemente enganadora. Se compreenderes como os óculos de sol alteram a luz que atinge os teus olhos, e se compreenderes suficientemente a própria visão, serás capaz de explicar a mudança na aparência do mundo. Na verdade, os sentidos são efectivamente bastante fiáveis desde que saibamos o suficiente sobre o modo como operam. Podemos ser capazes, por exemplo, de pegar em qualquer par de óculos de sol e prever com bastante precisão o modo como o mundo parecerá através desses óculos. A investigação da percepção, segundo este ponto de vista, pode superar as dúvidas do cepticismo.
Robert Sekuler e
Randolph Blake
Perception, 3ª ed., McGraw-Hill, Nova Iorque, 1994, pp. 8-11
Tradução de Pedro Galvão
Perception, 3ª ed., McGraw-Hill, Nova Iorque, 1994, pp. 8-11
Tradução de Pedro Galvão

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