quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Platão e a retórica

SÓCRATES — Dizias há pouco que até em questões de saúde o orador é mais persuasivo do que o médico.
GÓRGIAS — Sim, perante uma multidão.
SÓCRATES — Perante um multidão quer dizer, certamente, perante aqueles que não sabem, porque, perante aqueles que sabem, o orador não pode ser mais persuasivo do que o médico.
GÓRGIAS — Dizes bem.
SÓCRATES — Nesse caso, se ele for mais persuasivo do que o médico, será mais persuasivo do que aquele que sabe.
GÓRGIAS — Sem dúvida.
SÓCRATES — E isto sem ser médico, não é verdade?
GÓRGIAS — Sim.
SÓCRATES — Mas aquele que não é médico não é ignorante nas matérias em que o médico é entendido?
GÓRGIAS — Claro que é.
SÓCRATES — Então, quando o orador é mais persuasivo do que o médico, é um ignorante a ser mais persuasivo do que um entendido perante uma multidão de ignorantes. É realmente isto que sucede ou é outra coisa?
GÓRGIAS — No caso presente é o que sucede.
SÓCRATES — E não estão o orador e a retórica na mesma situação relativamente a todas as outras artes? Não precisa a retórica de conhecer a natureza das coisas, mas tão-somente de encontrar um meio qualquer de persuasão que a faça aparecer aos olhos dos ignorantes como mais entendida do que os entendidos.

Platão, Górgias, 459 a - c.

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