«Os seres humanos
acreditaram muito tempo que o Sol girava em torno de uma Terra imóvel. O senso
comum pretendia também que se classificasse a humanidade segundo as semelhanças
físicas como a cor da pele, a forma da cabeça, o cabelo, o tamanho...
Durante dois séculos,
os antropólogos, alguns entre os mais eminentes da sua época, tentaram confortar
estas evidências, forjando o conceito de raça. Os seus trabalhos serviram ao
longo da história moderna para justificar as piores atrocidades, todas as
barbáries.
As descobertas da
Biologia moderna, em particular as da Genética, destruíram totalmente aquelas
teorias potencialmente criminosas.
Como diz o Prémio
Nobel François Jacob: "Para a nossa espécie, o conceito de raça não é um
conceito operacional". Mediante a análise dos sistemas sanguíneos, das
defesas imunitárias, a exploração do genoma, a Genética teve acesso às nossas
caraterísticas moleculares escondidas e forneceu-nos revelações espetaculares:
à exceção dos verdadeiros gémeos, cada um dos cinco biliões de seres humanos do
Planeta tem um património genético diferente. Cada indivíduo é único. Paradoxalmente
a Genética mostra-nos também o extraordinário parentesco entre todas as
populações. Estas têm todas aproximadamente os mesmos genes, havendo todavia
frequências variáveis de acordo com os laços mais ou menos recentes que
estabeleceram entre si.
Os avanços científicos
permitem mesmo traçar a história da humanidade. As conclusões de apaixonadas
investigações de várias equipas de biólogos, confirmadas pelos trabalhos de
Paleontologia, revolucionaram as ideias sobre a evolução do homem moderno. Afirmam
a origem única de todas as populações atuais. O Homo sapiens teria nascido há
100 000 anos aproximadamente, algures entre a África Oriental e o Médio
Oriente. As populações ter-se--iam diferenciado em seguida de modo contínuo, de
acordo com as suas migrações. E as semelhanças físicas? Elas resultam de uma
seleção relativamente rápida onde intervém de facto a semelhança dos
ecossistemas originais. É esta seleção que explica, por exemplo − escreve André
Langaney −, as convergências entre Papuas e Africanos-Equatoriais, entre
Tibetanos, Ameríndios dos Altos Andes e Esquimós, etnias geneticamente
afastadas.
Se a noção de raça não
tem fundamento, o racismo continua a existir. Há mudanças e relações sociais
que o alimentam. Não obstante, a tarefa mais nobre da ciência é a de combater
as ideias feitas e recebidas, os preconceitos, isto é, ir para lá das
aparências.»
Editorial da
revista Sciences et Avenir,
n.º 540,
fevereiro de 1992.




