segunda-feira, 31 de março de 2014

A consciência nasce na Sociedade

"É difícil o momento em que nasce a consciência moral. O seu despertar é o da razão e a razão não é insuflada do exterior para a criança num determinado instante. Traz a razão em si desde o nascimento, mas como uma aptidão privada ao princípio das condições do seu exercício. A
A sociedade é o lugar onde nasce a consciência. Não a cria mas ajuda-a a constituir-se. O adulto é respeitado e temido pela criança e as suas ordens são, para ela, o próprio dever. Com Piaget, podemos distinguir dois tipos de relações sociais: "as relações sociais de coação, que consistem em impor do exterior ao indivíduo um sistema de regras de conteúdo obrigatório, e as relações sociais de cooperação, cuja essência consiste em fazer surgir no interior dos espíritos a consciência das normas ideais que comandam todas as regras". As primeiras fundam-se num respeito unilateral, as segundas num respeito mútuo. O autor opõe à ação dos pais a exercida sobre a criança pelo grupo dos seus coetâneos, ação de cooperação mais apta a suscitar a reciprocidade e a autonomia. Seja como for, a tarefa de educação consistirá em conduzir a criança da coação suportada ao dever cumprido e amado, do respeito cedo ao respeito mútuo, das ordens impostas à cooperação. E isto não é impossível mesmo no seio da família.
Meio social, exemplos, tradições, mas também grau de inteligência e nível de moralidade, constituem as causas contingentes que moldam uma consciência. Nenhum escândalo há, pois, em ver as diferentes conceções que, segundo os lugares e os tempos, os homens têm do dever. O que permanece invariável é a ideia de que há um dever; o que varia é o conteúdo do dever, mas quem é dotado de razão tem necessariamente o sentimento de uma ordem que se impõe à sua conduta."
Gabriel Madinier, La conscience morale

domingo, 16 de março de 2014

O envelhecimento

(...) o envelhecimento ocorre dentro de um contexto que envolve outras pessoas- amigos, colegas de trabalho, vizinhos e membros da família. Esta é a razão pela qual interdependência e solidariedade entre gerações (uma via de mão dupla, com indivíduos jovens e velhos, onde se dá e se recebe) são princípios relevantes para o envelhecimento ativo. A criança de ontem é o adulto de hoje e o avô ou avó de amanhã. A qualidade de vida que as pessoas terão quando avós depende não só dos riscos e oportunidades que experimentam durante a vida, mas também da maneira como as gerações posteriores oferecerão ajuda e apoio.
Envelhecimento activo. Um Projeto de Política de Saúde, OMS, Abril, 2002

sábado, 15 de março de 2014

Viver sem Filosofar...

"Viver sem filosofar é como ter os olhos sem nunca procurar abri-los e o prazer de ver todas as coisas que a nossa vista alcança não se compara à satisfação que confere o conhecimento do que se encontra pela Filosofia; e, enfim, que este estudo é mais necessário para orientar as ações e conduzir-nos na vida do que o uso dos olhos nos guiar nos passos. Os animais irracionais que apenas possuem o corpo para conservar; ocupam-se, continuamente, em procurar alimentá-lo; mas os homens, cuja parte principal é o espírito, deveriam primeiramente usar o tempo na procura da sabedoria, o seu verdadeiro alimento. Estou convencido também que muitos há que não deixariam de o fazer, se tivessem esperança de o conseguir e soubessem que disso são capazes. Não existe pessoa, por menos elevada que seja que, embora permanecendo fortemente ligada aos objetos dos sentidos, não se afaste algumas vezes deles para desejar um outro bem maior; ainda    que ignore, com frequência, em que consiste. Aqueles que a fortuna mais favorece, que desfrutam plenamente de saúde, honras e riquezas, não estão mais isentos de tal desejo que os outros; pelo contrário, penso que são estes que suspiram com mais força por um outro bem, mais elevado do que todos aqueles que já possuem. Ora este bem mais elevado, considerado pela razão sem a intromissão da crença, não é outra coisa senão o conhecimento da verdade através das suas primeiras causas, isto é, sabedoria, da qual a Filosofia é o estudo"



Descartes, Princípios da Filosofia, Lisboa, Guimarães Ed., 1984, pp.31 e 32

Onde está Deus?



“Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar, ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
            Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino ao pé de uma lareira qualquer… Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro… (…)
            Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado na Fantasia. De um pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá a ideia de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma ideia Dele a quem possa amar… Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez não seja nunca esse o pai da minha alma”

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, vol.II Ática, 1982, pp. 14-15

segunda-feira, 10 de março de 2014

Obrigações Morais e Legais

  1. Quem quiser tornar-se um jogador de xadrez melhor deve estudar os jogos de Garry Kasparov;
  2. Quem quiser ir para a faculdade de direito deve inscrever-se nos exames de acesso.
Grande parte da nossa conduta é governada por tais “deves”. O padrão é: temos um determinado desejo (ser melhores jogadores de xadrez, ir para a faculdade de direito); reconhecemos que um certo percurso nos ajudará a obter o que desejamos (estudar os jogos de Kasparov, fazer a inscrição para os exames de acesso); e, por isso concluímos que devemos seguir o plano indicado.
Kant chamou a isto “imperativos hipotéticos” porque nos dizem o que fazer desde que tenhamos os desejos relevantes. (…) Uma vez que a força de obrigatoriedade do “deves” depende de termos ou não o desejo relevante, podemos escapar à sua força renunciando simplesmente ao desejo. (…)

Em contraste, as obrigações morais não dependem de desejos específicos que possamos ter. A forma de uma obrigação moral não é “Se queremos isto ou aquilo, então devemos fazer isto ou aquilo”. Os requisitos morais são, ao invés, categóricos: têm a forma “Deves fazer isto e aquilo, sem mais”. A regra moral não é, por exemplo, que devemos ajudar as pessoas se nos importamos com elas ou se temos outro objetivo que possamos alcançar ao auxiliá-las. A regra é, pelo contrário, que devemos ser prestáveis para as pessoas independentemente dos nossos desejos e necessidades particulares. É por isso que, ao contrário dos “deves” hipotéticos, não se pode evitar as exigências morais dizendo, simplesmente, “mas isso não me interessa”.
RACHELS, J., Elementos de Filosofia Moral, Gradiva, 2004, pp. 175-176.

As nossas ilusões

        

 A nossa geração quis dar o melhor às crianças e aos jovens. Sonhámos grandes sonhos para eles. Procurámos dar-lhes os melhores brinquedos, roupas, passeios e escolas. Não queríamos que eles andassem à chuva, se magoassem nas ruas, se ferissem com os brinquedos caseiros e vivessem as dificuldades pelas quais nós passámos.
      Colocámos uma televisão na sala. Alguns pais, com mais recursos, colocaram uma televisão e um computador no quarto de cada filho. Outros preencheram o tempo dos seus filhos com atividades, matriculando-os em cursos de inglês, informática, música.
      Tiveram uma excelente intenção, só não sabiam que as crianças precisavam de ter infância, necessitavam de inventar, correr riscos, dececionar-se, ter tempo para brincar e encantar-se com a vida. Não imaginavam o quanto a criatividade, a felicidade, a ousadia e a segurança do adulto dependiam das matrizes da memória e da energia emocional da criança. Não compreenderam que a televisão, os brinquedos manufaturados, a internet e o excesso de atividades bloqueavam a infância dos seus filhos.
Criámos um mundo artificial para as crianças e pagámos caro por isso. Produzimos sérias consequências no território das suas emoções, no anfiteatro dos seus pensamentos e no solo das suas memórias.
CURY, A.Pais Brilhantes, Professores Fascinantes, Editora Pergaminho Lda., 2004, pp. 11-12.