sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015



“Vou contar-lhe uma lenda hindu que li esta manhã. Julgo que é do género das que lhe contava Anisie. Ouça: é a história de um asceta célebre que se chamava Narada. Impressionado pela sua santidade, Visnu prometeu satisfazer-lhe qualquer desejo. «Mostra-me o que faz o teu poder, ó incompreensível Maya», pediu o eremita. Visnu fez-lhe sinal para o seguir. Pouco depois, como caminhavam por uma estrada deserta ao sol e tinham sede, Visnu pediu-lhe que fosse até à aldeia que se avistava a pouca distância e que lhe trouxesse água. Ficou à beira da estrada à espera dele. Narada apressou o passo e foi bater à porta da primeira casa que encontrou. Abriu a porta uma rapariga. Era tão bela que, ao vê-la, Narada esqueceu a razão por que viera. Entrou na casa e foi recebido por toda a família com as honras devidas a um santo homem. Ficou hóspede dessa gente durante muito tempo. Por fim casou com a bela rapariga e conheceu as alegrias do casamento e todas as felicidades e desgraças entrelaçadas que constituem a existência dum lavrador. Assim se passaram doze anos. Narada tinha tido entretanto três filhos e por morte do sogro ficara dono da propriedade. Mas no décimo segundo ano chuvas torrenciais inundaram a região. Na mesma noite os seus rebanhos afogaram-se e a casa ruiu. Levou com um dos braços a esposa e com o outro os dois filhos mais velhos. Pusera o mais novo aos ombros. Depois avançou penosamente através das águas. Mas a carga era pesada de mais. A criança que pusera aos ombros escorregou e caiu. Então depôs tudo e mergulhou para a apanhar. Mas era demasiadamente tarde. A torrente arrastara-a em poucos instantes. Durante esse tempo, os dois mais velhos tinham sido também arrastados e logo a seguir a esposa. Em breve o próprio Narada caiu de fadiga e o seu corpo boiou sem consciência como um pedaço de madeira. Quando voltou a si, atirado pelas vagas para cima de um rochedo, lembrou-se de todas as desgraças que tinham caído sobre ele e desatou a soluçar. Mas ouviu de súbito uma voz familiar: «Meu filho, então onde está a água que foste buscar-me? Estou à tua espera há pelo menos meia hora!» Narada voltou a cabeça. Em lugar do dilúvio que aniquilara tudo, viu apenas planícies desertas, rebrilhando sob um sol de meio-dia. «Compreendeste agora o mistério do meu poder?», perguntou-lhe Visnu. «Compreendeste em que consiste Maya?»
Biris fechou o livro e pô-lo sobre a secretária. Stefan escutara imóvel.
– É uma história esplêndida – comentou Biris ao ver que o silêncio se prolongava.
– Mas você acredita realmente que possa ser verdade?”

Mircea Eliade, Bosque Proibido, Editora Ulisseia, Lisboa, págs. 463 e 464.

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