quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A Ciência substituiu a Religião?



«No mundo industrializado, onde se nota que o impacte da Ciência teve maior sucesso e é mais conspícuo, deu-se um decréscimo acentuado no número de aderentes às maiores instituições tradicionais. Na Grã-Bretanha, já só uma ínfima percentagem da população vai à igreja regularmente. Contudo, seria um erro concluir que o declínio do número dos que frequentam a igreja pode ser directamente atribuído à maior proeminência da Ciência e da tecnologia. Muita gente preserva no seu íntimo crenças profundas sobre a natureza do mundo, que podem ser classificadas de religiosas, mesmo que possam ter rejeitado ou, pelo menos, ignorado, as doutrinas cristãs tradicionais. Qualquer cientista pode testemunhar que, se a religião foi desalojada da consciência das pessoas, não foi certamente substituída pelo pensamento científico e racional. (...). O que parece mais relevante para explicar  o declínio da religião é o facto da Ciência, através da tecnologia, ter alterado tão radicalmente as nossas vidas que as religiões tradicionais parecem ter perdido a capacidade imediata de fornecer qualquer espécie de ajuda, no ajustamento aos problemas pessoais e sociais contemporâneos. Se a Igreja é hoje, em grande medida ignorada, isso não se dá porque a Ciência tenha triunfado da sua antiga guerra com a religião, mas porque modificou de tal forma a sociedade, que a perspectiva bíblica do mundo parece hoje totalmente irrelevante. (...) Em consequência disso, muitos crentes desiludidos voltaram-se para religiões ‘alternativas’ que parecem mais sintonizadas com a era as ‘Guerra das Estrelas’ e com os microchips. A grande vaga dos cultos associados com os OVNI, a PES (Percepção extra-sensorial), comunicação com espíritos, cientologia, meditação transcendental e ainda outras crenças com base tecnológica, atesta a atracção da fé e do dogma numa sociedade superficialmente racional e científica. Apesar de estas ideias excêntricas terem um verniz científico, são desavergonhadamente irracionais (...).
As pessoas voltam-se para estes cultos, não para receberem esclarecimento intelectual, mas para procurarem apoio espiritual num mundo difícil e incerto.»


Paul Davies, Deus e a Nova Física, Edições 70, Lisboa, pp. 13-15.

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