«No mundo industrializado, onde se
nota que o impacte da Ciência teve maior sucesso e é mais conspícuo, deu-se um
decréscimo acentuado no número de aderentes às maiores instituições
tradicionais. Na Grã-Bretanha, já só uma ínfima percentagem da população vai à
igreja regularmente. Contudo, seria um erro concluir que o declínio do número
dos que frequentam a igreja pode ser directamente atribuído à maior
proeminência da Ciência e da tecnologia. Muita gente preserva no seu íntimo
crenças profundas sobre a natureza do mundo, que podem ser classificadas de
religiosas, mesmo que possam ter rejeitado ou, pelo menos, ignorado, as doutrinas
cristãs tradicionais. Qualquer cientista pode testemunhar que, se a religião foi
desalojada da consciência das pessoas, não foi certamente substituída pelo
pensamento científico e racional. (...). O que parece mais relevante para
explicar o declínio da religião é o
facto da Ciência, através da tecnologia, ter alterado tão radicalmente as
nossas vidas que as religiões tradicionais parecem ter perdido a capacidade
imediata de fornecer qualquer espécie de ajuda, no ajustamento aos problemas
pessoais e sociais contemporâneos. Se a Igreja é hoje, em grande medida
ignorada, isso não se dá porque a Ciência tenha triunfado da sua antiga guerra
com a religião, mas porque modificou de tal forma a sociedade, que a
perspectiva bíblica do mundo parece hoje totalmente irrelevante. (...) Em
consequência disso, muitos crentes desiludidos voltaram-se para religiões
‘alternativas’ que parecem mais sintonizadas com a era as ‘Guerra das Estrelas’
e com os microchips. A grande vaga dos cultos associados com os OVNI, a PES
(Percepção extra-sensorial), comunicação com espíritos, cientologia, meditação
transcendental e ainda outras crenças com base tecnológica, atesta a atracção
da fé e do dogma numa sociedade superficialmente racional e científica. Apesar
de estas ideias excêntricas terem um verniz científico, são desavergonhadamente
irracionais (...).
As pessoas voltam-se para estes
cultos, não para receberem esclarecimento intelectual, mas para procurarem
apoio espiritual num mundo difícil e incerto.»
Paul Davies, Deus e a Nova Física,
Edições 70, Lisboa, pp. 13-15.

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