domingo, 9 de fevereiro de 2014

O paradoxo da tolerância


«(…) Levada ao limite, a tolerância “acabaria por negar-se a si mesma” (…), deixando as mãos livres àqueles que querem suprimi-la. A tolerância, portanto, só vale dentro de certos limites, que são os da própria salvaguarda e da preservação das suas condições de possibilidade. É o que Karl Popper denomina o “paradoxo da tolerância”: “Se formos de uma tolerância absoluta, mesmo como os intolerantes, e não defendermos a sociedade tolerante contra os seus assaltos, os tolerantes serão aniquilados e com eles a tolerância.” Isto só vale enquanto a humanidade é aquilo que é, conflituosa, passional, dilacerada, mas por isso mesmo tem valor. Uma sociedade onde fosse possível uma tolerância universal deixaria de ser humana e, de resto, não precisaria de tolerância. Ao contrário do amor e da generosidade, que não têm limites intrínsecos, nem finitude que não a nossa, a tolerância é, por conseguinte, essencialmente limitada: uma tolerância infinita seria o fim da tolerância!»


Comte-Sponville, A., Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, Martins Fontes, 1999.

1 comentário:

  1. É verdade que a tolerância nem sempre é o mais desejável. Em nome da tolerância muitos povos foram subjugados e perseguidos.

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