"Encontramos como primeiros elementos do conhecimento do
sujeito pensante, o sujeito cognoscente e o objeto conhecido. Todo o
conhecimento, qualquer conhecimento há-de ser de um sujeito sobre um objeto. De
modo que a parelha sujeito cognoscente – objeto conhecido é essencial em
qualquer conhecimento. Esta dualidade do objeto e do sujeito é uma separação
completa; de maneira que o sujeito é sempre sujeito e o objeto sempre o objeto.
Nunca pode fundir-se o sujeito no objeto nem o objeto no sujeito. Se se
fundissem, se deixassem de ser dois, não haveria conhecimento. O conhecimento é
sempre, pois, esta dualidade de sujeito e de objeto. Mas esta dualidade é ao
mesmo tempo uma relação. (...). Esta relação aparece-nos, em primeira
instância, como uma correlação, como uma relação de ida e volta, que consiste
em o sujeito ser sujeito para o objeto e o objeto ser objeto para o sujeito.
(...) Assim como a esquerda não tem sentido nem significa nada a não ser por
contraposição à direita, e a direita não significa nada a não ser por
contraposição à esquerda; (...) do mesmo modo sujeito, no conhecimento, não tem
sentido por contraposição a objeto, e objeto não tem sentido senão por
contraposição a sujeito. A relação é, pois, uma correlação. Mas, além disso,
esta correlação é irreversível. (...) Não há possibilidade de o objeto se converter
em sujeito ou o sujeito em objeto. Não há reversibilidade.
Mas podemos chegar mais ao fundo desta relação entre
sujeito e objeto. Esta relação consiste em que o sujeito faça algo. E o que é
que o sujeito faz?
Faz algo que consiste em sair de si até ao objeto; para
apoderar-se do objeto, para o captar. Esse apoderar-se do objeto não consiste,
contudo, em tomar o objeto, agarrá-lo e metê-lo dentro do sujeito. Não. Isso
acabaria com a correlação. O que o sujeito faz, ao sair de si mesmo para se
tornar dono do objeto, é captar o objeto mediante um pensamento. O sujeito dá
de si um pensamento do objeto. Vista a relação pelo outro lado, diremos que o
objeto vai até ao sujeito, entrega-se ao sujeito, não na totalidade do sujeito,
mas de tal forma que produz uma modificação no sujeito, uma modificação na
totalidade do sujeito, modificação que é o pensamento. De modo que agora temos
um terceiro elemento na correlação do conhecimento.
Já não temos somente o sujeito e o objeto, mas agora
também temos o pensamento. (...).
O pensamento é, pois, produzido por uma ação simultânea
do objeto sobre o sujeito e do sujeito ao querer ir ao objeto.
O objeto é transcendente relativamente ao sujeito e é-o
tanto se se trata de um objeto dito real – como este vaso ou esta lâmpada –
como se se trata de um objeto dito ideal, como o triângulo ou a raiz quadrada de
três, porque tanto num caso como no outro, o objeto aparece ao sujeito como
algo que tem em si as suas propriedades que não são aumentadas nem diminuídas,
nem mudadas pela atividade do sujeito que quer conhecê-las".
Garcia
Morente e Juan Bengoechea, Fundamentos de Filosofia, S. Paulo, Editora Mestre
Jou, pp. 147-148

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