segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O Determinante da Amizade


“ Os amigos cuja afeição é baseada no interesse não amam um ao outro, por si mesmos, e sim por causa de algum proveito que obtêm um do outro. O mesmo raciocínio se aplica àqueles que se amam por causa do prazer; não é por seu caráter que gostamos das pessoas espirituosas; mas porque as achamos agradáveis. Logo, as pessoas que amam as outras por interesses amam por causa do que é bom para si mesmas, e aqueles que amam por causa do prazer amam por causa do que lhes é agradável, e não porque a outra pessoa é a pessoa que ama, mas porque ela é útil ou agradável”


                  ARISTÓTRELES, Ética a Nicomaco, 4ª ed, Trad. De Mário Kury, Ed. Universidade de Brasilia, 2001

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Argumentação e Procura da Verdade


     “A democracia baseia-se no pressuposto de que não há homens que nascem para mandar nem existem outros que nascem para obedecer, mas que todos nascemos com a capacidade de pensar e, portanto, com o direito político de intervir na gestão da comunidade da qual fazemos parte. Mas, para que os cidadãos possam ser politicamente iguais, é imprescindível que em contrapartida nem todas as suas opiniões sejam: deve haver algum meio de hierarquizar as ideias na sociedade não hierárquica, potenciando as mais adequadas e afastando as erróneas ou prejudiciais. Numa palavra, procurando a verdade. É exatamente esta a missão da razão, cujo uso todos partilhamos ( antigamente as verdades sociais eram estabelecidas pelos deuses, pela tradição, pelos soberanos absolutos, etc.). Na sociedade democrática, as opiniões de cada um são fortalezas ou castelos onde se encerram como forma de auto afirmação pessoal: “ter” uma opinião não é ter uma propriedade que ninguém tem direito a tirar-nos. Oferecemos a nossa opinião aos outros para que a debatam e, por seu lado, a aceitem ou a refutem e não apenas para que saibam “ onde estamos e quem somos”. E, desde logo, nem todas as opiniões são igualmente válidas: valem mais as que tenham melhores argumentos a seu favor, as que melhor resistem à prova de fogo do debate com as objeções que lhes são colocadas.
     Se não queremos que sejam os deuses ou certos homens privilegiados que usurpem a autoridade social ( quer dizer, que sejam quem decide qual é a verdade que convém à humanidade) não resta outra alternativa que submetermo-nos à autoridade da razão como via para a verdade. Mas a razão não está  situada como árbitro semidivino acima de nós para conciliar as nossas disputas, mas funciona dentro de nós e entre nós. Não só temos que ser capazes de exercer a razão nas nossas argumentações mas também – e isto é muito importante e talvez ainda mais difícil – devemos desenvolver a capacidade de ser convencidos pelas melhores razões, venham elas de quem vierem. Não respeita a autoridade democrática da razão quem só sabe manejá-la a favor das suas teses mas considera humilhante ser persuadido pelas razões opostas. Não basta ser racional, quer dizer, aplicar argumentos racionais a coisas ou factos, mas é não menos imprescindível ser razoável, ou seja, acolher nos nossos raciocínios o peso argumental de outras subjetividades que também se exprimem racionalmente. A partir da perspetiva racionalista, a verdade procurada é sempre resultado, não ponto de partida: essa procura inclui a conversação entre iguais, a polémica, o debate, a controvérsia. Não como afirmação da sua subjetividade mas como via para atingir uma verdade objetiva através das múltiplas subjetividades. Se sabemos argumentar mas não sabemos deixar-nos persuadir, far-nos-á falta um chefe, um deus, ou um Grande Perito que finalmente decida o que é verdade para todos”

                                                                       Fernando Savater, As Perguntas da Vida

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Alegoria da Caverna

– Depois disto – prossegui eu – imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos “robertos” colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
– Estou a ver – disse ele.
– Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objetos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.
– Semelhantes a nós – continuei –. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projetadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
– Como não – respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?
– E os objetos transportados? Não se passa o mesmo com eles?
– Sem dúvida.
– Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objetos reais, quando designavam o que viam?
– É forçoso.
– E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
– Por Zeus, que sim!
– De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objetos.
– É absolutamente forçoso – disse ele.
– Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objetos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?
– Muito mais – afirmou.
– Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objetos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
– Seria assim – disse ele.
– E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objetos?
– Não poderia, de facto, pelo menos de repente.
– Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objetos, refletidas na água, e, por último, para os próprios objetos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
– Pois não!
– Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
– Necessariamente.
– Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.
– É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
– E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
– Com certeza.
– E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com mais agudeza os objetos que passavam e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo “servir junto de um homem pobre, como servo da gleba”, e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?
– Suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela maneira.
– Imagina ainda o seguinte – prossegui eu –. Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
– Com certeza.
– E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?
– Matariam, sem dúvida – confirmou ele.
– Meu caro Gláucon, este quadro – prossegui eu – deve agora aplicar-se a tudo quanto dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão, e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la. O Deus sabe se ela é verdadeira. Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública.



Platão, República, Livro VII, 514a-517c, Fundação Calouste Gulbenkian, 1989, pp. 317-323.



O poder da ação

«De tudo quanto existe, algumas coisas dependem de nós, outras não dependem de nós. De nós dependem a opinião, os apetites, os impulsos, a aversão e, numa palavra, cada uma das nossas ações. Não dependem de nós o corpo, os bens, a fama, o poder e, numa palavra, tudo o que não constitui uma ação nossa. Mais, o que depende de nós é por natureza livre, sem constrangimentos e ilimitado, enquanto que o que não depende de nós é fraco, servil, sujeito a constrangimentos e pertença de outrem.»

EPICTETO, A Arte de Viver, Edições Sílabo, Lisboa, 2007, pág. 23.

O paradoxo da tolerância


«(…) Levada ao limite, a tolerância “acabaria por negar-se a si mesma” (…), deixando as mãos livres àqueles que querem suprimi-la. A tolerância, portanto, só vale dentro de certos limites, que são os da própria salvaguarda e da preservação das suas condições de possibilidade. É o que Karl Popper denomina o “paradoxo da tolerância”: “Se formos de uma tolerância absoluta, mesmo como os intolerantes, e não defendermos a sociedade tolerante contra os seus assaltos, os tolerantes serão aniquilados e com eles a tolerância.” Isto só vale enquanto a humanidade é aquilo que é, conflituosa, passional, dilacerada, mas por isso mesmo tem valor. Uma sociedade onde fosse possível uma tolerância universal deixaria de ser humana e, de resto, não precisaria de tolerância. Ao contrário do amor e da generosidade, que não têm limites intrínsecos, nem finitude que não a nossa, a tolerância é, por conseguinte, essencialmente limitada: uma tolerância infinita seria o fim da tolerância!»


Comte-Sponville, A., Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, Martins Fontes, 1999.