«A partir do fim do século XIX (…)
verifica-se a cientifização da técnica. (…) O desenvolvimento técnico entrou
numa relação de feed-back com o progresso das ciências modernas. Com o
aparecimento da investigação industrial em grande escala, a ciência e a técnica
(…) surgem integradas num único e mesmo sistema. Entretanto, a investigação
industrial foi emparelhada com a investigação científica sob o comando do
Estado, que favorece em primeiro lugar o progresso científico e técnico no domínio
militar. Por sua vez, as informações refluem nos domínios da produção civil. É
assim que a ciência e a técnica se tornam a força produtiva principal. (…)
Enquanto as forças produtivas estavam
manifestamente ligadas às decisões racionais e às actividades instrumentais dos
homens produzindo socialmente, podiam-se considerar estas como o potencial de
um poder crescente de dispor tecnicamente das coisas, sem que pudessem ser
confundidas com o quadro institucional em que se integravam. Ora o potencial
das forças produtivas, com a institucionalização do progresso científico e
técnico, tomou uma forma que faz com que se apague da consciência dos homens o
dualismo do trabalho e da interacção.
Sem dúvida, os interesses sociais
determinam ainda, como sempre aconteceu, a direcção, as funções e a rapidez do
progresso técnico. Mas estes interesses definem o sistema social como um todo,
coincidindo com o interesse de o sistema se manter a si próprio (…).
É assim que o progresso quase autónomo
da ciência e da técnica, do qual depende efectivamente a variável mais
importante do sistema, isto é, o crescimento económico, se transforma em
variável independente. Resulta daí uma perspectiva segundo a qual a evolução do
sistema social parece ser determinada pela lógica do progresso científico e
técnico. (…) Uma vez implantada esta ilusão, a propaganda pode invocar o papel
da ciência e da técnica para explicar e legitimar as razões pelas quais, nas
sociedades modernas, um processo de formação democrática da vontade política,
no que se refere às questões da prática, «deve» necessariamente perder toda a
sua função e ceder lugar às decisões de natureza plebiscitária (…). É a tese da
tecnocracia, e o discurso científico desenvolveu esta teoria sob diferentes
versões. Mas parece-nos mais importante o facto de esta ilusão poder penetrar
também, como ideologia implícita, na consciência da população despolitizada e
aí ter um papel de legitimação. O aspecto particular desta ideologia é que ela
afasta a concepção que a sociedade tem de si mesma do sistema de referências da
actividade comunicacional, e subtrai-a aos conceitos de uma interacção
mediatizada por símbolos, para a substituir por um modelo de ordem científica.
Do mesmo modo, uma certa concepção de
si, do mundo vivido social, culturalmente determinado, dá lugar a uma
auto-reificação dos homens, que se encontram assim submetidos às categorias da
actividade racional em relação a um fim, o do comportamento adaptativo.
Jürgen Habermas, La Technique
et la Science comme Idéologie, Denoël/Gauthier, Paris,
págs.
43-45.
