sexta-feira, 29 de maio de 2015

A ciência e a técnica como ideologia


«A partir do fim do século XIX (…) verifica-se a cientifização da técnica. (…) O desenvolvimento técnico entrou numa relação de feed-back com o progresso das ciências modernas. Com o aparecimento da investigação industrial em grande escala, a ciência e a técnica (…) surgem integradas num único e mesmo sistema. Entretanto, a investigação industrial foi emparelhada com a investigação científica sob o comando do Estado, que favorece em primeiro lugar o progresso científico e técnico no domínio militar. Por sua vez, as informações refluem nos domínios da produção civil. É assim que a ciência e a técnica se tornam a força produtiva principal. (…)
Enquanto as forças produtivas estavam manifestamente ligadas às decisões racionais e às actividades instrumentais dos homens produzindo socialmente, podiam-se considerar estas como o potencial de um poder crescente de dispor tecnicamente das coisas, sem que pudessem ser confundidas com o quadro institucional em que se integravam. Ora o potencial das forças produtivas, com a institucionalização do progresso científico e técnico, tomou uma forma que faz com que se apague da consciência dos homens o dualismo do trabalho e da interacção.
Sem dúvida, os interesses sociais determinam ainda, como sempre aconteceu, a direcção, as funções e a rapidez do progresso técnico. Mas estes interesses definem o sistema social como um todo, coincidindo com o interesse de o sistema se manter a si próprio (…).
É assim que o progresso quase autónomo da ciência e da técnica, do qual depende efectivamente a variável mais importante do sistema, isto é, o crescimento económico, se transforma em variável independente. Resulta daí uma perspectiva segundo a qual a evolução do sistema social parece ser determinada pela lógica do progresso científico e técnico. (…) Uma vez implantada esta ilusão, a propaganda pode invocar o papel da ciência e da técnica para explicar e legitimar as razões pelas quais, nas sociedades modernas, um processo de formação democrática da vontade política, no que se refere às questões da prática, «deve» necessariamente perder toda a sua função e ceder lugar às decisões de natureza plebiscitária (…). É a tese da tecnocracia, e o discurso científico desenvolveu esta teoria sob diferentes versões. Mas parece-nos mais importante o facto de esta ilusão poder penetrar também, como ideologia implícita, na consciência da população despolitizada e aí ter um papel de legitimação. O aspecto particular desta ideologia é que ela afasta a concepção que a sociedade tem de si mesma do sistema de referências da actividade comunicacional, e subtrai-a aos conceitos de uma interacção mediatizada por símbolos, para a substituir por um modelo de ordem científica.
Do mesmo modo, uma certa concepção de si, do mundo vivido social, culturalmente determinado, dá lugar a uma auto-reificação dos homens, que se encontram assim submetidos às categorias da actividade racional em relação a um fim, o do comportamento adaptativo.

Jürgen Habermas, La Technique et la Science comme Idéologie, Denoël/Gauthier, Paris,

págs. 43-45.