No próximo dia [20] (…), celebra-se o Dia Internacional da Filosofia, para chamar a atenção para a sua importância fundamental.
Mas, afinal, o que é e para que serve a Filosofia? D. Huisman e A. Vergez (…) escrevem, não sem razão, que há duas palavras que fazem do Hamlet “a peça filosófica por excelência”. Primeiro, há o famoso solilóquio: (…) “ser ou não ser: eis a questão”, e, depois, quando Polónio pergunta a Hamlet o que lê, este responde: (…) “palavras... palavras... palavras...” Alguns pensarão que a Filosofia não passa de um jogo de palavras (…).
Mãe de todas as ciências, a Filosofia não é uma ciência no sentido estrito, como hoje a entendemos. Daí que nenhum dos sistemas filosóficos obtenha consenso universal. Assim, quem não toma atenção, ao olhar para a história da Filosofia, pode ter a sensação de um montão de ruínas. Mas o filósofo é isso mesmo: filósofo. Não é sábio, mas amante da sabedoria. K. Jaspers acentuou: a Filosofia “trai-se a si mesma quando degenera em dogmatismo, num saber fixado numa fórmula, definitivo, completo. Fazer Filosofia é estar a caminho; as perguntas em Filosofia são mais essenciais do que as respostas e cada resposta converte-se numa nova pergunta”. Montaigne escreveu que “filosofar é aprender a morrer”. Portanto, a Filosofia também é arte de viver. No espanto interrogador: foi o espanto que levou os primeiros pensadores às especulações filosóficas, escreveu Aristóteles, seguindo o mestre, Platão. Por isso, Kant preveniu que a Filosofia não se pode aprender nem ensinar, apenas se pode aprender a filosofar. Foi essa também a lição de Sócrates, o mártir da Filosofia. Com o seu método (…), ia derrubando o falso saber, assente na ignorância (…), e, obrigando a refletir, servia de parteiro à verdade. Acusado de ateu e corruptor da juventude, não temeu a morte. Pelo contrário, enfrentou-a com dignidade, avisando os seus concidadãos: “Obedecerei mais ao Deus do que a vós e enquanto viver não deixarei de filosofar e interrogar-vos:
ateniense, como é que te não envergonhas de só pensar em amontoar riquezas, em adquirir honras, e
desprezas os tesouros da verdade e da sabedoria e não trabalhas para tornar a tua alma tão boa quanto pode sê-lo?”.
Filosofar é um trabalho de reflexão, isto é, tem a ver com aquele movimento do espírito que volta a si mesmo, pondo em questão os conhecimentos que já tem, a caminho de um saber (…) consciente e crítico (…). Neste sentido, a vida verdadeiramente humana é filosófica, ao colocar-se no plano da inquirição racional livre e do constante pôr em questão. (…) O filósofo, indo à raiz das questões, não abandona o mundo: o que alimenta a sua reflexão são os problemas essenciais do mundo e do homem. (…)
O filósofo verdadeiro não cai no dogmatismo: é crítico, humilde e tolerante na busca sem fim da verdade. (…) A razão, percorrido todo o seu caminho sabe que acende a sua luz na noite do mistério.
Anselmo Borges, in Diário de Notícias, 14 de novembro 2009.